As crises da nossa época

O tempo em que vivemos passa por várias crises. Uma delas  é a cultural. Tempo feito de incerteza, de insegurança a respeito de uma posição estável e sólida na sociedade, ou de uma identidade clara, esse é o nosso quotidiano. Por isso, o que é ou não certo, o que é ou não verdadeiro, hoje pluralizou-se… E os filósofos debatem o assunto, construindo não uma teoria da verdade, mas uma teoria das verdades, no plural, golpeando mortalmente o reino das certezas que imperava antes.

E porque a pluralidade das verdades deixou de ser algo contestável radicalmente é deixada para trás. E devido à possibilidade de diferentes crenças poderem ser consideradas e julgadas simultaneamente verdadeiras, e o serem de fato, a teoria da verdade, que se situa no centro da atenção dos pensadores, hoje, parece ter perdido muito da sua função de disputa em relação ao status de qualquer conhecimento diferente do filosófico.

A cultura ocidental tem sido duramente criticada – e com muita razão – por ser racista, sexista e imperialista… Mas não se pode deixar de afirmar que também é uma cultura muito preocupada pelo fato de ser racista, sexista e imperialista, etnocêntrica, paroquial e intelectualmente intolerante. Ou seja, é uma cultura que não gostaria de sê-lo, que não encontra mais referências seguras – como Deus, ou a Verdade, ou a Natureza das coisas – ao seu alcance para assumir o que afinal quer e/ou deve ser.

É precisamente esse legado, ou parte desse complexo legado, que emerge hoje de forma crescente. Não encontramos mais certezas ou verdades absolutas. Estamos em meio a uma pluralidade em que nada é categoricamente afirmado e o chão foge-nos sob os pés.

Enquanto os pré-modernos eram ensinados a ver a diferença com equanimidade e a aceitar a pluralidade preordenada das coisas como parte integrante da criação de Deus, a modernidade ensina que é possível excluir algumas realidades e construir um mundo de acordo com as próprias preferências, dentro do modelo de algumas ideias preconcebidas. Assim, foram sendo erigidos os edifícios modernos das grandes narrativas, cheios de certezas, conceitos rigorosos bem calcados e respaldados em relatos sem brechas ou inseguranças.

Um dos grandes desafios da pós-modernidade em que vivemos, talvez sem precedentes, é o fim disso que acabamos de descrever. Ou seja, a diversidade e a pluralidade em que estamos mergulhados, diversidade situada no interior de uma fraca, negligente e impotente institucionalização de diferenças, com as suas resultantes fugacidade, maleabilidade e curta sobrevida.

Se, antes, o desafio para a questão da identidade humana era como construí-la consistentemente e como dar-lhe uma forma que recebesse reconhecimento universal, hoje, o problema da identidade emerge, sobretudo, da dificuldade de sustentar qualquer identidade por um prazo mais longo, da virtual impossibilidade de encontrar uma forma de expressão da identidade que tenha possibilidade de ser reconhecida por toda a vida, e a resultante necessidade de não abraçar nenhuma identidade muito estreitamente, a fim de poder abandoná-la da maneira mais rápida possível. Tudo é passageiro, nada é certo ou firme. E o ser humano, que não tem vocação para o caos ou a anarquia, sente-se perdido no meio desta situação.

Assim, a cultura torna-se, mais que «valores» a defender ou ideias a promover, um trabalho a empreender sobre todo o tecido da vida social, a fim de manter a máquina do consumo oleada. «Trata-se de uma sociedade feita de “homens que querem ter alguma coisa”, e cada vez menos de homens e mulheres que “querem ser alguém”.

Em meio a essa crise cultural, as instituições que sempre compuseram o tecido social e promoveram a cultura ocidental encontram-se reconfiguradas apesar delas mesmas.  Assim acontece com uma das mais tradicionais e fundamentais instituições: a família. Neste momento em que o Sínodo sobre a família acontece em Roma, a sociedade se pergunta: que respostas trará para uma cultura movediça e líquida como a nossa? São grandes as expectativas e maior ainda as esperanças. 

* professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.