Homens podem e devem chorar

O machismo e o patriarcado são males que assolam as mulheres, mas que também afetam os homens de certa maneira. Se por um lado esses valores dão certos privilégios, muitas vezes o próprio homem não suporta os paradigmas e estereótipos impostos pela sociedade e acaba enfrentando dificuldades para lidar com suas próprias fraquezas. Uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia aponta que 80% dos homens sofrem com a falta de habilidade para colocar emoções e sentimentos em palavras. Além disso, o número de suicídios e de mortes é muito maior entre os homens do que entre as mulheres.

Quantos de nós não ouvimos, quando crianças, o famoso “homem não chora”? Homem pode chorar? Claro que sim. Essa foi só uma regra social inventada em algum momento da nossa história, durante a construção da humanidade. E muitas crenças antigas nada têm a ver com a construção social contemporânea. No entanto, esse comportamento ainda costuma ser passado de pai para filho, mesmo que inconscientemente.

É preciso que essa geração de rapazes adultos possa parar para questionar por que só eles têm que ganhar dinheiro, só eles não podem expressar as emoções? Qual a diferença entre homens e mulheres?

Precisamos criar um novo paradigma. Nós tivemos uma mudança de vida muito rápida por conta da tecnologia e, nos últimos 50 anos, viramos de cabeça para baixo tudo o que aprendemos. Há muito pouco tempo que passamos a refletir a nosso respeito, como somos, como funcionamos, a diferença entre homens e mulheres, o que é importante para um, o que é importante para o outro.

O mundo mudou antes de nós. A tecnologia chegou de forma avassaladora. E as mulheres que sempre tiveram mais espaço, que conseguiram aprender uma série de atividades ao mesmo tempo – cuidar da casa, da família, dos filhos etc – e lidar com outras mulheres, tiveram mais oportunidade de conversar. O homem não, ele teve que ir à luta, tinha que disputar o dinheiro com outros homens. A mulher, embora estivesse em uma posição menor, submissa, teve oportunidade de pensar sobre si mesma, de se olhar. O homem não, ele só teve oportunidade de ganhar dinheiro e foi se fazendo profissionalmente porque tinha a obrigação de ir para o topo da montanha. E aí, quando começou a se falar em autoconhecimento, as mulheres estavam anos luz à frente deles. Agora que elas estão dividindo espaço profissional, eles estão começando a reivindicar o espaço emocional.

Quando eu penso que os homens estão se revendo e querendo essas mudanças, que estão em crise, creio que isso dará início a um processo maravilhoso, pois eles serão nossos aliados. Mas isso leva um tempo. A crise é sempre boa, eles vão sofrer um tanto, assim como as mulheres que já passaram por isso e foram criativas o suficiente para dividir o espaço, seja no âmbito pessoal ou profissional. Da mesma maneira, eles farão e garantirão o espaço dentro do lar. Ainda que façam o caminho inverso, serão melhores pais, companheiros, ou seja, serão melhores dentro de casa. E chorar não faz mal para ninguém. Além de ajudar a colocar a raiva e o estresse para fora, faz o olho brilhar.

 

* Heloísa Capelas é autora do livro recém-lançado, o Mapa da Felicidade (Editora Gente). Especialista em Autoconhecimento e Inteligência Comportamental, é terapeuta familiar e atua no desenvolvimento do potencial humano há cerca de 30 anos.