Orgulho e Preconceito

Desde “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, os manuais militares recomendam que o comandante procure meios de derrotar o inimigo sem lutar. Os chefes das batalhas civis, em especial aquelas em curso no país hoje, parecem ter aprendido esta lição, pretendem construir o inimigo de acordo com sua conveniência, atacando, na verdade, uma caricatura que reúne todos os vícios e monstruosidades que a fazem digna do ódio da plateia; entendem que a única guerra a ser travada é da manipulação da opinião pública.

Neste tipo de processo, já ouvimos notícias de que os comunistas de antigamente comiam criancinhas no café da manhã, os ianques rondavam com seus tanques à cata do butim, os representantes do “grande capital” se reuniam para conspirar contra o terceiro mundo.  Talvez alguns dos citados tivessem mesmo um imenso débito moral e péssimas intenções, mas o correto é que fossem atacados por isso, e não por simplificações infantis.   

Mas é muito mais fácil argumentar por absurdo, afirmar categoricamente que todo o cidadão que não comunga de nossas opiniões é membro de uma tal “elite branca de olhos azuis”, saudosa da ditadura. Segundo o Houaiss, elite é o que há de melhor; não há menção à cor da pele e dos olhos. Se pensarmos em Milton Santos, Pelé, Gilberto Gil, Milton Nascimento e muitos outros representantes inequívocos do que há e houve de melhor em nosso país, que rótulo utilizaremos?

Para salientar o caráter classista, criou-se a figura da mulher que teria invadido, na adolescência, um restaurante famoso por não atender mulheres desacompanhadas; o que a caracterizaria como radical chic. A idiossincrasia do estabelecimento e o ato de rebeldia soam risíveis hoje, mas existe algo chamado contexto; nos anos 1960 era preciso muita coragem para desafiar as regras de comportamento impostas para mulheres “sérias”.

Respeitando as imensas diferenças de proporção, seria como dizer que Rosa Parks foi apenas uma negra mal educada que não respeitou o lugar reservado aos brancos num ônibus; mas o incêndio que essa mulher corajosa ateou foi fundamental para a questão racial americana, a desobediência civil tem movido o mundo.

Desacreditar o inimigo, mesmo que sacrificando o bom senso, é a prescrição para a batalha, a grande lição que estamos ministrando aos jovens. Cada vez mais agressivos, e não apenas no transito, nas filas e com estranhos, mas também nos ambientes escolares e organizacionais, ou seja, onde deveríamos mostrar cordialidade, revelamos os reais valores que tem norteado nossa convivência.

Estas demonstrações de incivilidade são, lamentavelmente, bem aprendidas pelos mais jovens, escolas são hoje locais onde afloram violências de toda ordem, entre alunos entre si, entre alunos e professores; atos odiosos de bullying são efetivados principalmente contra o bom aluno, o estudioso, o respeitador de normas, como se este fosse o tolo, e o estudo sério e compenetrado um defeito de caráter.

Aquele que quer aumentar seus conhecimentos é julgado como orgulhoso de pertencer a uma elite, mesmo que não branca e sem os olhos azuis, quando a regra é ser superficial e espontâneo, prezando apenas a política dos relacionamentos interpessoais em detrimento de outras qualidades como competência, discrição, disciplina, esforço. Contenção ou expansividade não se excluem mutuamente, agir como se apenas um dos comportamentos fosse o ideal de toda a sociedade apenas martiriza o portador do atributo “errado”.

Desacreditando todo aquele que não é como nós, apenas criamos um novo preconceito, tão odioso quanto qualquer preconceito.

 

*Wanda Camargo, educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.