Só existe reação quando o morto tem nome, sobrenome e qualificação profissional

Belas passeatas e atos públicos têm sido feitos na Zona Sul do Rio de Janeiro, na orla da praia ou à beira da Lagoa, onde o metro quadrado é um dos mais caros do mundo, gerando admiração e prestando solidariedade às vítimas de roubos da região. Entretanto, não se vê esta mesma solidariedade às centenas que morrem nas periferias, comunidades pobres e bairros sofridos deste mesmo Rio de Janeiro.

Pessoas "motorizadas", com boas roupas e cabelos bem cortados não são vistas fazendo passeatas na Baixada Fluminense, subindo o Morro do Alemão, a Rocinha ou o Chapadão. Esses não prestam solidariedade aos que, por infelicidade do destino, não têm nome, sobrenome, profissão e patrimônio. Eles não organizam atos públicos em favor dos que são vítimas de atropelamento, bala perdida e esquartejamento, onde o crime também se faz presente.

Parece que esses "manifestantes dominicais" só sentem vontade de ir às ruas quando esperam na segunda-feira serem retratados como solidários, entristecidos e penalizados com a sorte de um povo que há muito tempo sofre diariamente esse tipo de abandono ou descaso das autoridades.

Discute-se hoje se a morte foi à bala ou à faca, mas não se busca a solução do problema em sua raiz. E este erro de foco não se restringe apenas a este assunto. Não se discute, por exemplo, como uma universidade, alicerce da educação do povo e do desenvolvimento de um país, pode estar em greve por falta de higiene.

Ao invés, foca-se o descaso e a falta de recursos. Pede-se aos professores que voltem ao trabalho recebendo baixos salários. Pede-se aos funcionários que trabalhem como escravos, sem receber. Talvez se fosse discutido o descaso das autoridades, que não ensinam os alunos que, mesmo sem recursos, deveriam manter uma universidade limpa, talvez se educássemos os professores a educar os alunos e se a elite intelectualizada do país tivesse o que mais lhe falta - princípios -, ela teria formado novas elites que aprendessem com seus erros e o povo teria um país como todos os outros: um país mais civilizado. 

*Jacks Petrosvisk é sociólogo