Genival Santos, um adeus

É preciso não deixar esvair a história de um filão da música brasileira nascido nos grotões do Brasil. Mais do que a história da música, isso diz respeito à história de uma classe, de uma época e de uma região. Com tudo o que de positivo e negativo que daí emana, Genival Santos foi como o âmbar que conserva tudo o que há de fossilizado na cultura patriarcal dessa classe mas cujo brilho e beleza provindos justamente de músicas que retrataram o aqui e agora dos momentos passionais não admitem censura prévia. Esse é seu paradoxo, e querer negá-lo seria pura manobra de intransigência intelectual e moral.

As músicas de Genival alcançavam uma perfeição formal notável que, aliás, era compartilhada pelas elaborações performáticas dos músicos de outros cantores românticos da década de 1970; com arranjos de metais arrebatadores que marcavam suas músicas, principalmente as introduções como a de seu sucesso Livro aberto; com teclados marcados como gemidos, até contrabaixos solando barbaramente – qualquer músico honesto aplaudiria o perfeccionismo das construções harmoniosas e catárticas  das músicas do cantor de Campina Grande. Talvez fosse estratégica a elevação quase épica, no sentido da grandeza melódica repentina, das introduções de suas músicas, como se anunciassem um grito retumbante de um coração sofrido à maneira de um gesto teatral dramático.

O mundo das canções de Genival toca certa classe não menos porque haja aí uma identificação mas também porque atende, de certo modo, justamente a um critério de classe: “música de pobre, de bêbado, de corno etc”. Afinal, o bêbado e o traído de outras classes geralmente não recorrem a esse mundo de Vem morar comigo, Crucificado do amor, Se for preciso, Dupla traição, Eu não sou brinquedo etc. É um mundo compacto no qual não há previsão sobre um final feliz, pois o que vale é sublinhar o domínio de uma interioridade exasperadamente melancólica e, por isso, raivosa, daí mesmo a pulsão da música como vimos.

Deste modo, como um espelho, esse mundo tenta refletir a experiência de quem o encara (ouve). O que diante se encontra não é tanto o reflexo e a imagem aparente do próprio sentimento quanto a constatação do isolamento de quem ama e sofre, confirmando aquilo que Adorno escreveu: espelho e tristeza pertencem ao mesmo contexto. Sendo um espelho, esse mundo de Genival age como um espião (assim era visto o espelho antigamente) que ao mesmo tempo em que nos pega no fraga  ante nosso isolamento amoroso, serve de confidente desse amor desgarrado.

É curioso que tal mundo seja ao mesmo tempo um âmbar que emana um passado moral e um presente de nós que, quando chegamos perto, percebemos nosso reflexo: na dor, no amor, na resignação, na condição social. Como espelho e como âmbar de uma grande parcela da população, mostrando sua verdadeira face e suas contradições; como um dos grandes cantores nordestinos que abarrotavam as boates perto da Praça Mauá e do beco da fome no Rio de Janeiro da década de 70.

Morre Genival Santos, aquele que, segundo ele mesmo, “na venda de discos, só ficava atrás de Roberto Carlos”. Morre um pouco da história daqueles para quem "o mundo ensina a quem não sabe ler".

* Sergiano Silva é historiador.