Como voltar a investir em um cenário adverso 

A necessidade de aumentar investimento real no Brasil é algo inquestionável. No entanto, quando o empresariado se depara com um quadro incerto, marcado pela alta da taxa de juros, deterioração dos indicadores econômicos, de baixo desempenho do PIB e alta carga tributária que reduz a competitividade da indústria brasileira, é possível concluir que a conjuntura não deve mudar no curto prazo. Mesmo assim, oportunidades aparecem e, para aqueles que desejam se aventurar em projetos de fusões e/ou aquisições ou até mesmo expandir seu negócio e adquirir um equipamento, é preciso lançar mão de estudos elaborados. 

A grande questão é como prever os benefícios e custos financeiros que a decisão por esse ou por aquele bem de produção ou fornecedor irá gerar. Métodos como RFQ (Request for Quote), Global Sourcing, Strategic Sourcing variam em sua complexidade e podem, de acordo com o bem ou produto a ser adquirido, dar um panorama geral e nortear uma decisão de investimento adequada. Mas não contemplam o total de variáveis envolvidas, particularmente quanto a custos que surgirão no futuro, carga tributárias, gastos com treinamentos e outros. 

Em geral, a decisão sobre uma aquisição leva em conta apenas o valor principal do bem ou serviço contratado. Esse tipo de análise simplista pode transformar um investimento no túmulo de um negócio, particularmente quando se trata de bens de produção. Nesse caso, não falamos apenas de máquinas, mas, por exemplo, de um caminhão, mesmo que de pequeno porte. 

Nesse sentido, há um conceito que, se não é novo, é praticamente inédito na administração brasileira. Trata-se do levantamento de custo total de propriedade, que envolve o levantamento de uma série de variáveis que garantirão previsibilidade dos retornos e gastos de um investimento, a fim de garantir a perenidade do negócio. Ao adquirir um bem ou uma empresa, é preciso contemplar, inicialmente, o preço e a forma e prazo de pagamento. A partir daí, ponto em que as metodologias mais aplicadas param, contabilizam-se todos os demais custos de aquisição, como os juros. Em seguida, serão computadas as despesas presumíveis com a implantação: instalações, adaptações, customizações, ajustes necessários etc. Também deixará evidentes os investimentos na operação, como treinamentos operacionais e administrativos, custos de manutenção, previsão de tempo de operação e gastos necessários com insumos.

Esse levantamento permite a análise das diferenças do investimento total que um bem ou serviço pode demandar ao longo do tempo, os prejuízos que podem gerar, os custos de produção – que, se repassados aos clientes, comprometerão a competitividade e, consequentemente, a sustentabilidade do negócio. Desenvolvida por Michael Porter, a estratégia Liderança em Custo Total busca uma redução contínua de custos sem sacrifício da qualidade. Existem softwares que propiciam esse acompanhamento – embora sua aplicação possa se dar por meio de uma planilha de Excel.

Apesar dos benefícios, o uso desta metodologia ainda é raro. E isso não só no Brasil. Um levantamento realizado por uma das maiores montadoras alemãs apontou que, nos países que compõem a União Europeia, apenas 5% das empresas utilizavam a Estratégia de Custo Total. Ao limitar-se ao valor desembolsado na aquisição, as organizações deixam ao acaso uma parcela extremamente relevante do projeto. Em alguns casos, bens de produção podem gerar gastos posteriores que chegam a 97% do seu valor como propriedade. Num projeto de cinco a 20 anos isto pode tirar totalmente a competitividade da empresa. Se na Europa a adoção da metodologia é importante, no Brasil, com todas as dificuldades que os empresários vivem, ela é fundamental. . 

* Hovani Argeri, gestor comercial em multinacionais, é mestrando em administração de empresas na Fecap e advogado com especialização em direito constitucional.