“Primeiro eles vieram pelos socialistas, e eu não falei, porque não era socialista. Depois vieram pelos sindicalistas, e eu não falei, porque não era sindicalista. Aí, vieram pelos judeus, e eu não falei, porque não era judeu. Então, vieram por mim, e não havia restado ninguém que falasse por mim“. (Pastor Martin Niemöller)
“...a hipocrisia nacional dá continuidade ao esforço, ainda bem sucedido, de manter na categoria dos cidadãos de segunda classe os que não ostentam alguma claridade de pele ou abrandamento da rigidez capilar”.
Há no ar um certo ar de desânimo. A tese do estudo sobre o invólucro social da atitude da torcedora gremista, com os ataques das comparações simiescas, mesmo com a sua mais incisiva confirmação, no estúpido repetir do menosprezo destinado a eleitores da candidata reeleita, na ocasião, com o estigma da discriminação regionalista, anda, no caminho da indiferença, ao destino do eterno abandono. É assim que se confirmam interesses subalternos, reeditados no mundo todo: magrebinos e franceses continentais; suíços e alemães, na resistência contra a igualdade em relação a turcos, cidadãos de segunda classe em Berna ou Berlim; na permanente divisão entre alemães do leste e oeste do muro, cuja queda foi meramente um símbolo histórico da política internacional (ler, em O GLOBO de hoje, 9/11/2014, Mundo, pág. 50).
Aí está, para quem quiser ver. E, ao que parece, não se quer tanto ver. A leitura superficial da coluna do Ancelmo Gois, em O GLOBO, deste mesmo domingo comemorativo da queda física do muro de Berlim, aponta, com algarismos pouco divulgados que, mesmo após a PEC do Trabalho Doméstico, março de 2013, a configuração oficial do emprego ainda está em modestos percentuais de aumento. Evitem a carteira assinada. Não regularizem a autonomia das (dos também) prestadores do serviço de casa.
Essas observações transitam pelo trabalho universitário da coleta dos dados (Professora Hildete Pereira de Melo, da UFF), sem explosões mais retumbantes nos meios de divulgação. Mas, ainda assim, enquanto Angela Merkel, do leste alemão antemuro, continua na chefia do governo alemão, aqui, entre nós, destina-se ao lixo científico a análise do surto patológico de exposição da verdade posto ao dispor de todos pelo Professor Manoel Malaguti, da Universidade Federal do Espírito Santo. O ilustre mestre de Economia diz, com todas as letras da sinceridade, sem artifícios, “se tivesse que escolher entre um médico branco e um negro, escolheria um branco”. E, segundo alunos, “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro” (O GLOBO, 6.11., Sociedade, pág. 33).
O estrépito das declarações não está no sentido sociológico das declarações, perfeitamente aceito por toda gente, mas, sim, na franqueza da assertiva, em comportamento afastado do modo de ser hipócrita da sociedade como um todo. Esmagadora maioria assim pensa. Mas, dentro dos canais politicamente corretos e (por que não?) da polidez social, não o dizem, salvo no recôndito da segurança do lar ou do círculo de amizades de confiança. São as tais coisas que não se revelam em voz alta e perante o público externo.
Há alguns anos, que a lei do esquecimento e da conivência, vigente com firmeza inabalável, providenciou o cancelamento, um reitor de universidade de medicina (é isso mesmo, medicina) baiana declarou, com a mesma franqueza do ilustre economista e da torcedora gremista, que seus conterrâneos (negros, por suposto) só conseguiam tocar berimbau porque o instrumento tinha uma corda só. Metáfora classificatória da subalternidade étnica, apagada com o passar do tempo.
Um leitor solitário de Brasília (Renato Vivacqua) conseguiu o apoio corajoso do Jornal do Commercio, de 6/11/2014, e teve seu pensamento sobre a ignomínia lançada contra nordestinos eleitores da candidata reeleita (e os não eleitores?)publicado em Opinião, pág. A-12. Ao mesmo tempo em que ressalta o brilho do candidato derrotado (derrotado, com mais de 50 milhões de votos?), lamenta “...que a honrosa derrota tenha servido para pôr a nu parte nefasta de nossa população, até então hipocritamente oculta “.
A solitária declaração, invariavelmente, destinada ao universo da visibilidade seminula, chama os sociólogos e juristas, no angustiante plantão da defesa da sociedade e de seus reais valores, a intensificarem seus estudos e trabalhos, para melhorar a configuração da demografia nacional, e a classificarem melhor o comportamento da torcedora e dos professores, que, talvez, não materializem crime, racismo ou injúria, dita racial, mas, tão somente, falta de educação, finura, delicadeza, compostura.
Que assim seja. Ninguém, por lei, estará obrigado a gostar de negros, judeus, nordestinos, baixos, altos, fluminenses, flamengos, pobres, ricos... e iguais. Mas todos, sem exceção, obrigados a respeitar quem quer que seja, compelidos a preservar oportunidades, inderrogavelmente, compromissados com a ética, em primeiríssimo lugar, de si para consigo mesmo, para não cercear o gozo de direitos constitucionalmente protegidos, a possibilidade do lídimo proveito de elementares faculdades, a esperança da paz e o sonho da felicidade.
Que não se permita que aconteça o que aconteceu na Alemanha nazista, quando vencia o primeiro quartel do século passado, com crueldades e desigualdades sepultadas pelo silêncio a que se referiu o Pastor Niemöller, do pensamento inaugural deste excerto. Dentro em pouco, provavelmente, se surpreendam sem quem possa falar em sua defesa.
Muitos médicos e advogados brasileiros, brancos e pretos, estão entre os melhores do mundo. Desta forma, com sorte o sincero mestre da arte econômica.É acertar ou acertar.
* desembargador