A democracia, o turismo e a Copa das Confederações 

Um sopro de cidadania e de vontade de mudança ganha as ruas das grandes cidades brasileiras. Movimento pacífico que clama por transformações numa sociedade que precisa ser sacudida ,de vez em quando. No entanto,um grupo reduzido de manifestantes no Rio de Janeiro age com atos de vandalismo, destruindo o patrimônio público e gerando uma grande confusão.

Querem confundir a opinião pública e levar um movimento legítimo para outras instâncias. Não representam de maneira alguma a maioria e devem ser rechaçados. A Copa das Confederações, evento obrigatório para países que sediam a Copa, gerou gastos grandes para o país. Exigências da Fifa, que serão também aproveitadas para a Copa do Mundo. Falta um pouco de transparência nas ações desenvolvidas e também melhor entendimento da população sobre os referidos investimentos. O país, que tem uma saúde pública precária, um sistema de educação deficiente e que vive da distribuição de Bolsa Família, precisa rever seus processos de gestão pública. 

Ficamos perplexos com o amadorismo em certas atividades, como a sinalização turística e o treinamento dos voluntários. Aliás, o processo de voluntariado que muito beneficia os organizadores, que tem parte importante de seus gastos reduzida, não pode, por exemplo, tratar de forma diferente aqueles que trabalham no evento. O turismo precisa ser entendido como uma forma de reduzir as desigualdades sociais e proporcionar melhorias de infraestrutura com o dinheiro deixado pelos que nos visitam e que se traduzem em impostos e gastos nos diversos prestadores de serviços turísticos. 

Falou-se muito ultimamente em que os prestadores de serviço não estavam devidamente preparados para os grandes eventos, mas não foi mencionado que os salários pagos não são atraentes, sobretudo levando-se em conta as jornadas de trabalho e seu formato. O vento de democracia que ganha nossas ruas preocupa os marqueteiros, pela imagem negativa que pode levar do país aos principais mercados emissores. 

Não acho que manifestação pública afugente turista, mas entendo que destruir a Assembleia Legislativa, saquear lojas no centro e tentar invadir a sede da prefeitura, mesmo que organizados por minorias, levam uma imagem de instabilidade,que obriga a polícia a intervir, em alguns momentos de forma muito contundente, gerando preocupação da ONU.  

Devo confessar que acredito no turismo, mas sobretudo que a atividade deve proporcionar alguma mudança nas cidades e que eventos não podem mudar o dia a dia da população e causar ainda maiores transtornos numa cidade que vive problemas de trânsito caótico e tem deficiência de transporte público, em áreas da Zona Oeste, que ganharam grandes condomínios. 

Os milhares de pessoas que foram para as ruas deram um alerta: mudar é preciso, e o turismo pode ser a forma de introdução de novos conceitos de sustentabilidade, preservação e desenvolvimento harmônico. E um momento de reflexão que os profissionais de turismo devem aproveitar para rever algumas de suas práticas, sobretudo na cobrança, às vezes abusiva, dos serviços prestados, como diárias de hotéis. Viver a Cidade Maravilhosa na sua plenitude democrática e jovial pressupõe que tenhamos vontade de ouvir e que os ecos promovidos pelos quatro cantos da cidade resultem em novas políticas para um momento de reviravolta. Não vamos pensar que é um ataque pessoal, é simplesmente um clamor por mudanças! 


 * Bayard Do Coutto Boiteux , professor universitário, pesquisador e escritor, preside o site Consultoria em Turismo e coordena o curso de Turismo da UniverCidade.