Vandalismo, anonimato e omissão

Vi, outro dia, na televisão, alguns jovens denunciando a postura de policiais que reprimiam as manifestações nas ruas de São Paulo. Além da violência de que eles diziam ter sido vítimas, alegavam que muitos dos policiais, para que não fossem reconhecidos, haviam retirado da farda a tarjeta de identificação. O Comando da Polícia Militar disse que iria averiguar, para tomar providências. O estranho é que, ao lado, e ao fundo, as imagens mostravam jovens manifestantes com a face coberta. E aí cabe a pergunta: por que a preocupação com o anonimato? A resposta pode ser breve e contundente, e retrata a posição de qualquer pessoa de bom-senso, sempre condenando aquele que se esconde.

Não se pode deixar de lado o direito de se manifestar, afinal a democracia o permite. Por outro lado, não se pode negar o direito de ir e vir daqueles que, se não condenam a manifestação, pelo menos não aceitam que o seu caminho seja cortado, seja por um pelotão armado, ou por grupos que muitas vezes exageram no modo de agir.

O que fica nítido nessas manifestações é que o menos importante é o reajuste da tarifa dos transportes. Afinal, os protestos vão além das fronteiras do estado. O mosaico aglutina pedras de todas as vertentes. O que pode estar por trás de tudo é a ingerência política, o descontentamento com os abusos contra a sociedade, a lentidão da Justiça, a impunidade, as carências que a sociedade sofre.

O movimento das ruas reflete a desorganização da sociedade, a imoral carga tributária, o retorno pífio do que recebemos pelos impostos que pagamos; pode estar aí o protesto contra a omissão do poder público, contra o ensino público, a falta de segurança, o transporte deficiente, a saúde pública degradante, a falta de perspectivas.

Voltemos ao passado, embora saibamos que a situação atual é outra, mas nem por isso deve ser desprezada. Não nos esqueçamos das manifestações dos caras-pintadas que, instados pela mídia e por segmentos políticos, forçaram o Congresso a retirar do poder um presidente da República. Estamos longe disso, mas a força das ruas precisa ser respeitada, sempre.

Falta diálogo, mas para que isso aconteça, será necessário que sejam identificados os mentores, os verdadeiros líderes, quem está por trás do movimento, e, discutindo de maneira civilizada, possamos entrar num acordo, não contra as manifestações mas o modo como elas ocorrem. São Paulo e Rio, além de várias outras grandes cidades brasileiras, não podem ficar reféns de manifestantes, sejam eles meia duzia ou um milhão de pessoas.

Defendemos o direito da manifestação, mas o que não se pode permitir é o vandalismo, o banditismo, a violência. O que nos preocupa é a baderna, a destruição do patrimônio público ou privado, a agressão, o desprezo para com o direito dos semelhantes. Afinal, é elementar que o custo do vandalismo acaba caindo sempre no bolso de quem paga o imposto. E esse custo repercute nos já escassos benefícios que seriam destinados à população.

Não será cobrindo o rosto do manifestante, nem retirando a tarjeta de identificação do policial que iremos resolver a situação. A solução está no diálogo com os verdadeiros líderes, para que exponham de maneira clara os seus anseios, as suas pretensões. E nesse diálogo devem estar presentes representantes de todos os segmentos, para que o êxito ou o fracasso seja, de fato, dividido entre todos os envolvidos. Assim manda o bom-senso.

*Vitor Sapienza, economista e  é deputado estadual (PPS), foi presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e é agente fiscal de rendas. -  www.vitorsapienza.com.br