Uma nova racionalidade

Empreendimentos solidários rejeitam a dicotomia entre interesses econômicos e questões sociais. Hoje, sua razão de ser consiste em preencher as necessidades materiais de seus membros, bem como as aspirações não-monetárias, de reconhecimento, inserção social, autonomia, e assim por diante. 

Ainda que a sociedade moderna esteja envolvida pela economia, ela é um feixe de diferentes dimensões estruturais, onde nenhuma tem a primazia total. Não há, portanto, uma única economia, mas economias, inclusive aquelas solidariamente orientadas e que também podem se inserir no mercado. 

Uma nova geração de redes que começa a surgir, baseada na ideia de colaboração solidária, carrega consigo características de inúmeras práticas solidárias bem-sucedidas de diversas redes específicas anteriormente organizadas. Partindo-se dessas práticas, pode-se organizar estratégias de colaboração solidária com a capacidade de expandir novas relações sociais de produção e consumo. 

Ao selecionar e consumir produtos identificados pelas marcas das redes solidárias, nós contribuímos para que o processo produtivo encontre seu acabamento e que o valor por nós dispensado em tal consumo possa realimentar a produção em função do bem-viver de todos que integram as redes de produtores e consumidores. Implica uma tecnologia simples e de baixo custo, uma rede de competências flexível, diversificada, uma gestão e um financiamento assegurados, pelo menos em parte, pelas próprias comunidades, em suma, uma organização descentralizada. 

Cada vez mais estamos envolvidos em redes produtivas que requerem uma forte integração como condição de desenvolvimento do seu potencial. O consenso sobre tais práticas tem sido construído no interior de redes em que pessoas e organizações de diversas partes do mundo colaboram ativamente entre si, propondo transformações do mercado e do Estado. 

A progressiva e complexa integração dessas diversas redes, colaborando solidariamente entre si, põe no horizonte das possibilidades a realização de um novo marco civilizatório. Só assim a solidariedade poderá deixar o plano subjetivo e interpessoal para se constituir como uma nova racionalidade.

* Engenheiro