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Toda mulher gosta de apanhar

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Antes que os leitores exijam a cabeça do cronista ao editor da coluna, explico-me. Não custa lembrar: a polêmica frase que intitula o artigo é de autoria do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues. De parte deste escriba, asseguro que me utilizei da provocação apenas para discorrer sobre a violência contra a mulher, praticada com incômoda recorrência por uma parcela significativa da sociedade contemporânea. É verdade que o sentido da afirmação do controvertido teatrólogo, criador de Bonitinha, mas ordinária e Viúva, porém honesta, que agride de maneira frontal a condição feminina, se esvai pelo humor e irreverência da complementação discursiva, a que se adiciona o inusitado adendo: “Todas não, só as normais. As neuróticas reagem”.  

A partir deste cínico vaticínio, adverte-se que apenas a minoria representada pelas neuróticas, de fato, reagiriam ao assédio físico de âmbito hostil, de vez que, de um modo geral, a mulher normal regozijar-se-ia mediante surras, safanões e bofetadas. Ao propor a inversão comportamental, se redime a ínfima categoria que, socialmente, nos habituamos a denominar “mulher de malandro”, que, reza a lenda, mesmo quando o homem não sabe por que está lhe batendo, ela sabe por que está apanhando. Ocorre que, diante de um cenário de criminalidade tão acirrada contra as mulheres em todo o planeta, se deflagra a cultura da normalidade a se perceber desde as desigualdades salariais ao estupro coletivo em Curitiba, Índia e México, até os xingamentos de trânsito, piadas machistas em ambiente de trabalho ou cárcere privado. É vital denunciar o desespero de quem sofre a ameaça de um golpe moral, é preciso enfatizar que toda sorte de manifestações se faz urgente para estancar a realidade de maus-tratos contra milhares de pessoas indefesas, que se aniquilam a cada gesto de humilhação por parte de quem mutila perspectivas profissionais e humanas.  

Em pleno século 21, é imprescindível propagar aos quatro cantos que não se pode mais admitir que mulheres de toda estirpe sejam submetidas às torturas domésticas cotidianas premeditadas por seus respectivos cônjuges, através desta brutal violação da integridade mais primordial à travessia de cada ser pensante, independentemente de gênero, etnia ou religião. É necessário dizer que a atrocidade cometida contra a mulher abrange também o olhar de reprovação ao insinuar que a agressão se deve a algum motivo criado pela vítima, oriundo da probabilidade absurda da constatação que se justifica pelo “se apanhou do homem, foi porque provocou, ou mereceu”. No entanto, pode-se afirmar que tão agravante quanto soco ou pancada vem a ser o acometimento que se evidencia nas discrepâncias sociais entre um e outro; que se declara no jogo de sedução sob o jugo da ameaça; e que, por fim, se observa no tocante à ausência de liberdade de ação ou opinião a se estabelecer pela degradação do indíviduo.

A discriminação acaba por despedaçar a alma feminina tanto quanto o gesto de estupidez que deságua em processo por tentativa de homicídio nos aportes da Lei Maria da Penha; todavia, as humilhações que abarcam distinção trabalhista ou ofensa velada não são palpáveis a ponto de se instaurar inquérito, que culmine em sanção de ordem judicial. Não obstante, cabe alertar que a indiferença dos criminosos perante a Justiça se transporta por um vão obscuro de impunidade, que não se combate como práticas delituosas por ser considerada de menor calibre, mesmo quando destroçam o amor-próprio por intermédio de uma conduta covarde apta a castrar realizações de âmbito particular.

Se acaso não couber admoestação ou censura contra tal monstruosidade bárbara e sádica, que se invoca a cultuar a truculência física e psicológica contra um ser fragilizado pelas circunstâncias de tortura, quiçá seja mais propício se restaurar a consciência do agressor, para além da desmoralização pública e cárcere, que, decerto, não irão redimir os infames violadores da dignidade humana. Provavelmente, mais eficaz seja implantar o método de reprodução mental a fincar nos alicerces da humanidade, que o percurso feminino não se restringe ao frutificar de um ventre materno concebido, não para, no instante posterior, subjugá-lo; entretanto, prenunciar que tal criação fora, artesanalmente, talhada para enaltecer o dom da vida a avultar-se em signo de mulher.

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - [email protected]