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Receita para um poema de amor

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Para escrever um poema de amor, cuide de se inspirar no alvorecer de um sentimento magnífico, raro e nobre, a se instaurar pela singeleza de um ato de contemplação da musa idolatrada, que há de ser matéria-prima da receita subscrita por Santo Antônio ou Cupido, em forma de elegia ou soneto, com ingredientes culinários extraídos do chão de terra molhada:

·         1 kg de costela-de-adão;

·         700 g de ilusão fatiada em pequenas partes por lâmina de encantamento;

·      ½ xícara de diálogo recheado de compreensão,  reticências e silêncios;

·         Um pote de fermento do afeto nacional ou estrangeiro fabricado por engenho de artesanato diário;

·         Uma colher de ternura líquida misturada com afã de carícias e ciúme implícito reservado em banho-maria;

·         Três molhos de solidão ou nostalgia cultivados em horta orgânica;

·         Um ramo de arruda, sal grosso e uma figa de guiné.    

Modo de preparo

Colocar a costela-de-adão em recipiente de métrica ou rima, com o ramo de arruda, o sal grosso e a figa de guiné, até que se dissolvam as camadas de sinceridade cáustica e invasiva, os resquícios de indiscrição sobre passado alheio, máculas de egoísmo desmedido, resíduos de avareza de espírito e dinheiro, detritos de intransigência de ideias, réstias de arrogância e indelicadeza, substratos de maus agouros e fragmentos de olho gordo ou inveja do próximo. Logo a seguir, providenciar que se ponha as partes de ilusão de molho em água de córrego por 72 horas, que é o tempo máximo de três dias para uma reflexão decisiva ou mesmo para retorno do ente amado prometido pelo panfleto da cigana.

Neste período, para compor a obra literária procure separar a mágoa de um gesto inoportuno ou palavra atirada a contragosto, ao substituir as águas passadas que não movem o moinho da felicidade pelo antológico perdão dos deuses do Olimpo ou de altar-mor de capela. A partir daí, verificar se o tempero da fantasia se transformou em realidade. Em caso positivo, deposite as substâncias para cozinhar em fogo baixo de fogão a lenha, que é o segredo da boa culinária. 

Passo a passo

É de bom alvitre inserir os ingredientes desde que, por exigência de Vênus, em primeiro momento se despeje o diálogo e ternura fresca colhida em jardim de prosperidade. Acrescente o fermento de afeto e os três molhos de solidão ou nostalgia para, logo a seguir, eliminar o sofrimento de saudade e medo da perda repentina, a ser batido com farinha de trigo e ovos em tigela de prata de epitáfio. Cozinhar os vocábulos por tempo indeterminado em panela de barro até engrossar o caldo da poesia, sem se descuidar de mexer com colher de pau, antes que o Diabo enfie o garfo, para não encruar a mensagem de agradável convivência e fortuna. Finalmente, tempere as estrofes com pimenta-do-reino, paciência e coentro a gosto; os versos livres, com alho, folhas de perspicácia, cebola, leves pitadas de insensatez, alfavaca e cheiro-verde.    

Acompanhamentos

Arroz, generosidade, feijão-preto, branco ou manteiga, companheirismo, pimenta-malagueta, fidelidade, farofa, devoção, quibebe de abóbora, cumplicidade, purê de batata, afeição, bacon, arrebatamento, torresmo e cordialidade.

Modo de servir

Preparar a mesa com rosas, orquídeas, begônias, jasmins, dálias e bromélias em vasos chineses, por sobre toalha de renda das artesãs do Vale do Jequitinhonha. Depor finos tapetes, talheres de prata, taças de cristal e vinho de jabuticaba. O prato principal deverá ser apresentado por declamação ao pé do ouvido à luz de velas artesanais egípcias, a fim de que seja abençoado por Eros e Afrodite.

Degustação 

Eis o poema a ser sublinhado por cítaras, acordeons, harpas e flautas da orquestra dos serafins, fadas e duendes, ávida por adentrar o inviolável mistério dos enamorados. Em estado de ansiedade e gratidão, habituamo-nos a festejar a silente e estrondosa chegança de Amor, a deslizar-se por um raio de sol ou traço de luz.

Face a face, o recital dos segredos da escrita se entonará sob a égide de fadários satélites dos instintos, de modo a se testemunhar o encontro entre um homem que, de sua costela, fez-se fêmea, para banquetear-se, por sagrada antropofagia, mediante comunhão com a imagem de Deus em semelhança de mulher.

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). -[email protected]. br