Nos primórdios do Modernismo, quando escreveu o conto Urupês, ao dar à luz o episódio da “escora santa” protagonizado por Jeca Tatu, o ficcionista Monteiro Lobato jamais poderia imaginar que, em pleno século 21, influenciaria o prefeito Eduardo Paes na resolução dos problemas urbanos ocasionados pelas águas de janeiro a março, conforme decantou Antônio Carlos Jobim. Aos leitores que não tiveram a oportunidade de conhecer o registro literário do escritor responsável pela criação do Sítio do Pica-Pau Amarelo, explico que a tal “escora santa” consiste em uma imagem de Nossa Senhora que serve para proteger do desabamento a residência do caboclo à mercê dos dilúvios, torós, vendavais e tempestades.
Ocorre que, quando na “mansão de Jeca Tatu a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir”, para se resolver a questão, ao invés de “tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede”, o filósofo da Lei do Menor Esforço providenciou uma imagem sagrada da Mãe de Jesus de Nazaré, a fim de neutralizar o desaprumo da natureza e prevenir suas drásticas consequências, no tocante à enxurrada que se anunciaria por intermédio dos raios e trovoadas a roncar no maciço do horizonte. Se a população carioca comparar as medidas tomadas pela gestão administrativa de Eduardo Paes com as superstições e crendices da personagem de Monteiro Lobato, observará que ambas se equiparam no intuito da apelação por um milagre divino. Destarte, nota-se que a “escora santa” da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro seria a implantação das sirenes de aviso para desocupação dos barracos em áreas de risco, prenúncio de uma catástrofe a ser divulgada pela edição do Jornal Nacional.
Diante deste estado de calamidade pública, peço permissão para indagar se, porventura, não seria mais prudente alojar os moradores das favelas em conjuntos habitacionais, que lhes possibilitassem decentes padrões de moradia, acesso ao trabalho, saúde e educação. Ainda que os integrantes da classe média esquerdista e festiva sejam terminantemente refratários às remoções dos imóveis às margens de penhascos e ribanceiras, creio que seja mais eficaz transferir as pessoas antes da chegada dos fatídicos aguaceiros de verão. Se não posso afirmar com todas as letras, ao menos suspeito que a questão se paute pelo pejorativo vocábulo “remoção”, que, de acordo com os dicionários, significa “amputação”, “ablação”, “abscisão”. Decerto, a definição da palavra se predispõe a causar tiques nervosos, urticárias e calafrios nos candidatos do PSOL, PSTU e afins, mais do que a ação propriamente dita de instalar seres humanos numa habitação com luz elétrica, gás e saneamento básico.
Por que não se providencia a realocação em apartamentos construídos pelo projeto Minha Casa, Minha Vida, que lhes assegure dignidade sem o constrangimento de uma noite mal dormida por medo de desmoronamento de encosta ou do deslizar de uma pedra a ceifar a sobrevivência de homens, mulheres e crianças que, literalmente, não têm aonde ir para se esconderem da tragédia anunciada? Talvez, aos olhos dos eleitores, seja mais cômodo disparar o alarme de uma sirene a soar nas consciências das autoridades fluminenses contemporâneas como uma espécie de dever cumprido, uma vez que, afinal de contas, a culpa pelas precárias condições de moradia da população vem a ser oriunda do populismo de Leonel Brizola, que distribuiu carta de posse da propriedade sem discriminação de raça ou credo. De bravatas e falsas acusações se elege um político no primeiro turno, para exercer a função do alcaide de um território ilhado por morros e favelas por todos os lados.
Entretanto, sugiro que o último debate entre os candidatos transmitido pela Rede Globo ou Bandeirantes, por exemplo, seja feito numa noite chuvosa de outubro num local conhecido como Laboriaux, na Rocinha, a fim de que o futuro prefeito da Cidade Maravilhosa sinta na pele o que é temer pela vida, com a proteção da “escora santa” do caboclo Jeca Tatu; ou de um sinal de alto-falante disparado pelo prefeito Eduardo Paes a traduzir o desespero de uma família a sair da viela se equilibrando por sobre valas negras com a lata d’água na cabeça: “Lá vai Maria...”
* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco.