Será que a Rio+20 não serviu para nada, mesmo? 

Passados alguns meses da megaconferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável ocorrida no Rio, temos condições de avaliar com mais distanciamento (e menos “paixão”) as reais implicações do encontro. Poucas pessoas esperavam que a Rio+20 pudesse mudar o mundo. Entretanto, de uma forma modesta e inesperada, ela pode ter feito exatamente isso. 

Entre os dias 20 e 22 de junho deste ano, mais de 45 mil pessoas, incluindo cerca de 100 chefes de Estado, com representantes de 180 países, se encontraram no Riocentro. Líderes da Austrália ao Zimbabwe, incluindo o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao e o seu par francês, François Hollande, participaram, apesar de algumas ausências notáveis, como a da chanceler alemã Angela Merkel, do presidente norte-americano, Barack Obama, e do primeiro-ministro inglês, David Cameron. 

O propósito do encontro era renovar o compromisso político com o desenvolvimento sustentável e endereçar os novos desafios para atingir esta meta, mas muitos acreditam que o evento falhou nesta questão. Enquanto que a primeira conferência (a Eco 92) produziu os tratados para as mudanças climáticas e para a biodiversidade, entendidos como marcos históricos, o encontro deste ano produziu um documento de 53 páginas, intitulado O futuro que queremos, o qual tem sido considerado fraco em ambição e confuso no conteúdo. 

O impacto do documento pode ter sido diluído, entre outros fatores, pelo fato de a palavra “encorajar” aparecer 50 vezes no texto, mas a expressão “faremos”, apenas cinco. A palavra “apoiar” aparece 99 vezes, mas “devemos”, só em três ocasiões... 

Parte da frustração pode ter sido causada pelo desejo dos organizadores de preservar o legado de 1992 e evitar um fracasso nos moldes do que aconteceu na convenção climática de Copenhagen, em 2009, de modo que o documento em seu formato final já deveria estar acordado antes que os líderes políticos chegassem. Assinar alguma coisa era visto como um resultado melhor do que não assinar nada. Isto deixou pouco espaço para ser negociado, produzindo algo no menor denominador comum, que não satisfez praticamente ninguém. 

Mas nem tudo pode ser considerado frustração, e seria um erro achar que nada de importante ocorreu na Rio+20. Aconteceram muitas ações. Elas apenas não vieram das negociações políticas e governamentais. As empresas – e alguns governos locais e regionais – assumiram este papel junto com a sociedade civil e as organizações não governamentais. Paralelamente ao que ocorria no Riocentro, acordos de US$ 500 bilhões foram fechados nas áreas de energia renovável, mobilidade urbana, economia verde, redução de desastres naturais, desertificação, água, florestas e agricultura. 

Em 1992 foram os governos que protagonizaram os acordos e empurraram as empresas para a ação. Vinte anos depois, este papel se inverteu. Desta forma, ainda que timidamente, podemos afirmar que a Rio+20 mudou o mundo, demonstrando que as empresas podem e irão abraçar as iniciativas do desenvolvimento sustentável com ou sem progresso político no nível internacional. 

Por um longo período, as empresas afirmaram que os governos deveriam fornecer claramente uma perspectiva de longo prazo e um senso de direção a seguir. Elas pediram um assento na mesa de negociação e aguardaram uma resposta política, que não aconteceu, seja pelo estado em que se encontram as economias desenvolvidas, seja pela proximidade de eleições em que não se quer avançar por receio de desagradar a certos eleitores. 

Muitas empresas reconheceram o impacto das megaforças da sustentabilidade em seus negócios, como a mudança climática, a escassez de água, a segurança alimentar e a urbanização massiva, e resolveram não aguardar uma decisão política. Em vez disso, estas empresas estão fazendo as próprias ações. Obviamente, nem todas as empresas já se convenceram disto. Ainda há muitas que entendem sustentabilidade como algum tipo de ação filantrópica desvirtuada de qualquer sentido do negócio. A questão é que as empresas líderes já estão agindo, e quem não fizer nada talvez não esteja mais por aqui em uma eventual Rio+40...

*Ricardo Zibas é gerente sênior da área de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da KPMG no Brasil.