Puxadinhos, terminais, shopping centers... e os ILSs

Tudo indica que a senhora presidente Dilma Rousseff resolveu enfrentar os estatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e partiu de vez para as privatizações de vários setores como ferrovias, rodovias, portos e aeroportos. O neoliberalismo já não assusta mais, além de que o “pibinho” petista só cresceu 1,2% nos últimos 12 meses.

O jornalista Aristóteles Drummond, através do texto Realismo no trem-bala, publicado por este Jornal do Brasil(28/08/12), resumiu com propriedade a decisão da presidente: “No momento não cabem utopias, mas, sim, realismo e pragmatismo. A presidente Dilma parece estar indo nesta direção”.

Os recentes planos de privatização – podem utilizar os sofismas que quiserem, mas essa é a palavra correta – levados a cabo pela presidente não deixam dúvidas que, finalmente, o Brasil buscou o melhor caminho para resolver os seus graves e crônicos problemas de infraestrutura e logística. Melhor para o nosso país que, não obstante o cada vez maior inchaço da máquina estatal com seus quase 40 ministérios, secretarias especiais e outros penduricalhos somados aos seus milhares de funcionários comissionados (apadrinhados da base aliada e sem concurso público), não tem tido a competência gerencial para levar a cabo os inúmeros projetos de que tanto necessita o Brasil para que o mesmo seja mais competitivo.

São tantos ministérios e outros tais na Esplanada que eles se sobrepõem, e nessa confusão de quem decide o quê, ninguém se entende. Há poucos dias ouvi de um empresário uma frase que define bem a situação atual: “Antes de o PT chegar ao governo, eu ia a Brasília uma vez e resolvia quatro assuntos; hoje, eu vou quatro vezes e não resolvo nada!”.

A solução para resolver essa questão é simples: basta reduzir pela metade a quantidade de ministérios e secretarias, mas, nestes tempos de eleições municipais, a presidente não vai melindrar o PT e sua base aliada. Preferiu ela criar mais uma estatal – a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), através da MP nº 576, de 15/08/12, em tramitação – para tentar controlar os egos exaltados dos apadrinhados e pôr a máquina estatal para funcionar.

Pelo que temos observado através da mídia, não há maiores resistências em relação à privatização dos portos, das rodovias e ferrovias. No entanto, em relação aos aeroportos, sem que haja uma explicação plausível, estamos observando uma enorme resistência em relação ao novo modelo de privatização. Segundo o jornal Valor (Regras para aeroportos opõem grupos no governo, 27/08/12) existem “duas alas” no âmbito do governo, ou seja, uma privatista e outra estatizante, sendo que nesse, “segundo grupo, destaca-se o secretário do Tesouro, Arno Augustin. O grupo tem ainda a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e o secretário-executivo dela, Beto Vasconcelos, uma espécie de “pupilo” de Dilma”.

Só nos resta torcer para que a presidente Dilma não se deixe levar por estes estatizantes, pois seria um verdadeiro retrocesso em seus planos de desenvolvimento. Que a presidente tenha presente que o melhor caminho a ser adotado é aquele que foi trilhado com sucesso por Fernando Henrique Cardoso e reconhecido internacionalmente, as privatizações.

Curioso notar que o fortalecimento da Infraero defendido pelo senhor Arno Augustin (que foi contra a privatização dos aeroportos de Viracopos, Guarulhos e Brasília) prevê a adoção de “parcerias público-privadas (PPPs) para atrair um sócio estrangeiro à Infraero, que continuaria como majoritária na gestão dos aeroportos”. Sejamos sensatos. Alguém acredita que empresas do porte da Fraport (Frankfurt), Aéroports de Paris (Charles de Gaulle), CAS (Chicago), HAS (Houston), BAA (Heathrow) e Schipol (Amsterdã), com a larga experiência que têm, vão ficar subordinadas à ingerência política da Infraero?

Aos estatizantes e “esquerdistas, contumazes idólatras do fracasso, e que recusam-se a admitir que as riquezas são criadas pela diligência dos indivíduos, e não pela clarividência do Estado”, segundo afirmava o brilhante economista Roberto Campos, sugiro-lhes que tenham o pragmatismo da presidente Dilma e deem-se conta de que o estatismo de antanho já mostrou, de sobra, a sua incapacidade gerencial.

Enquanto isso, a estatal aeroportuária brasileira continua construindo “puxadinhos” (oficialmente Módulos Operacionais Provisórios – MOP, sic!) e no tocante aos aeroportos só se fala em novos terminais, shopping centers em seus interiores e edifícios-garagem, mas nenhuma palavra sequer é dita a respeito da mobilidade (metrô, VLT e TAV) para se chegar aos mesmos e os tão necessários instrumentos de navegação ILS (para o inglês Instrument Landing Systems).

Tal proceder nos leva a deduzir que a Infraero quer que os passageiros, após passarem horas e horas nos engarrafamentos, fiquem espremidos por outras tantas horas nos luxuosos terminais, enquanto os aviões permanecem no chão (desperdiçando combustível), esperando a chuva ou nevoeiro passar!

 

*Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em estruturas de concreto, geração de energia, saneamento e materiais explosivos.