Volksverein 

É quase um palavrão, esta palavra, Volksverein. E, mais que a tradução, é difícil de se pronunciar, aliás como boa parte do vocabulário alemão. Para iniciar a explicação, socorro-me de recente artigo de jornal: “Verein, que se pronuncia fea-ain, é uma palavra alemã que se escuta bastante. Tem origem no verbo 'vereinen', que significa juntar, unir ou unificar. 'Verein' pode ser associação, clube, círculo de amigos, time esportivo amador, sociedade, cooperativa, fundação, irmandade, fã-clube, voluntariado, grupo de trabalho ou de estudo, ONG, Oscip, núcleo, organização... A tradução mais comum é associação, porém os 'Verein' alemães são muito mais variados se comparados ao formato e à atuação das associações do Brasil” (Verein, Cristina Ruiz-Kellermann, O Globo, 10/07/12).

A razão deste artigo são três. A data em que escrevo é 25 de julho, Dia do Colono. Esta data é uma alusão a 25 de julho de 1824, quando os primeiros colonos imigrantes alemães aportaram em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. É uma data para comemorar o dia daqueles que, agricultores familiares ou camponeses, com trabalho, mãos e ideias, produzem o alimento e garantem o sustento das pessoas e o sustento do mundo. A outra razão é o fato de 2012 ser o Ano do Cooperativismo, instituído pela ONU, destacando a contribuição das cooperativas para o desenvolvimento socioeconômico e reconhecendo seu trabalho para a redução da pobreza, geração de emprego e integração social. As cooperativas são "Volksverein", legitimadas por valores como a gestão compartilhada do trabalho, ajuda mútua, equidade, solidariedade, distribuição equitativa da renda obtida e fortalecimento do desenvolvimento local de forma autossustentável. “Mais que um negócio, é uma filosofia de vida capaz de unir desenvolvimento econômico e bem-estar social, preconizando a formação de uma sociedade mais justa e mais humana” (Adriana de F. Meira Vital, professora do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido).

Por fim, 2012 marca o centenário de fundação da Sociedade União Popular, constituída pelos descendentes alemães em 1912 na cidade de Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, sendo seu idealizador o jesuíta suíço padre Theodor Amstad. A Sociedade União Popular era uma "Volksverein, uma associação do povo, em tradução literal (aliás, é a mesma origem da palavra Volkswagen, que significa "carro do povo"). Seu objetivo era congregar os descendentes de imigrantes alemães, incentivando-os para uma vida comunitária intensa e ativa, sob os parâmetros da solidariedade cristã, conduzindo a um desenvolvimento equilibrado e sadio de suas comunidades nos aspectos religioso, social, político e econômico. O lema latino dos Volksverein era Omnibus omnia – isto é, Tudo para todos.  

Fui criado na Linha Santa Emília, Venâncio Aires, que vai completar 150 anos de fundação (ou colonização) em 2015. Por lá, região de colonização e cultura alemã, os "verein" estão presentes em tudo. Não se anda sozinho, não se faz nada sozinho. Primeiro, sempre a comunidade, católica ou evangélica. Depois, a comunidade escolar. O professor,  nos idos dos anos 1950, um único professor, Edgar Fröhlich, dava conta de cinco turmas e era pago pelos pais dos alunos, que também construíam e mantinham a escola. E eu aprendi, bem, a ler e escrever. A educação era central na vida das famílias, quase tão sagrada quanto a comunidade e a educação religiosa, católica ou luterana.  Em seguida, a sociedade, os "verein", onde, antigamente, jogava-se bolão e cartas, e era o lugar dos homens se encontrarem e tomarem cerveja, e as mulheres jogarem bolãozinho. Hoje é o lugar de todo tipo de festas, em geral ao lado de um campo de futebol. E não faltava a cooperativa, união dos produtores e plantadores para comercializarem seus produtos, terem melhores preços, mercado e retorno financeiro garantidos.   

O espírito comunitário era, ainda é hoje, um valor inerente às pessoas e famílias. Como diz o artigo citado de Cristina Ruiz-Kellermann: “Os ‘verein’ fazem parte da cultura alemã. E, apesar de não terem fins lucrativos, podem funcionar como um espaço coletivo de trabalho e de ensino, sendo úteis para seus membros e abertos aos interessados. Todas as associações têm como objetivo reunir pessoas com interesses, necessidades ou filosofia de vida comuns”. 

A ideia de quem participa de um "Volksverein" ou "Verein" ou de uma cooperativa nunca era, ou é, de enriquecer ou tirar proveito pessoal. Nunca ouvi de papai qualquer outro sentido para a participação comunitária a não ser o de pertencer ao coletivo, fazer as coisas junto, conviver com os amigos e parentes, ser feliz. Não havia, e não há, o objetivo do lucro, do enriquecimento, do privilégio, do "ganhar alguma coisa com isso" em termos materiais. Bastava, e basta, acordar todos os dias e viver bem, ter o suficiente para comer, recursos para educar os filhos, poder comprar um refrigerante para os filhos, em geral numerosos naqueles tempos, nas festas, no futebol de domingo, nas quermesses e "kerbs" do padroeiro, padroeira, dar um presente, mesmo que simples, um chocolate, um brinquedo feito a mão no Natal e na Páscoa para a filharada e afilhados. 

Nada mais que isso. Era-é o suficiente. Era-é muito.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.