Rio de Janeiro, Patrimônio de Fé 

Foi anunciada pela Unesco a eleição da cidade do Rio de Janeiro como Patrimônio Mundial da Humanidade na categoria Paisagem Cultural. Pela primeira vez isso ocorreu, o que nos faz continuar cantando que o “Rio continua lindo”. Sabemos que, como toda notícia e escolha, nos tempos atuais, as reações são as mais diversas. Na prática, tal declaração significa que a nossa querida cidade de São Sebastião está agora colocada no rol daquelas de maior destaque em todo o mundo, e que requer de todos os que aqui habitam uma responsabilidade maior com a sua preservação, tanto em suas belezas naturais ou criadas pelo homem, como, principalmente, no trabalho pela dignidade humana e fraternidade entre as pessoas.

As paisagens de tropical ousadia, marcadas por montanhas verdejantes e picos de alturas impressionantes e formas intrigantes, chamaram de imediato a atenção dos nossos antepassados, quer dos primeiros habitantes, quer dos que para cá vieram depois. O lugar escolhido por Estácio de Sá e pelo padre José de Anchieta não tardou a tornar-se o epicentro das decisões nacionais, exercendo por séculos a função de capital nacional. Aqui, nossa pátria deu os primeiros passos para sua independência com a chegada da corte, em 1808. Diante de suas praias e de seus altares, foram coroados nossos imperadores, e o Brasil viu afirmar-se sua identidade nacional.

Aqui se iniciou a República e foi a sede dos presidentes que governaram o Brasil durante sete décadas. Aqui também, graças aos esforços do inesquecível cardeal Leme, a Igreja viu-se respeitada e prestigiada, quando no alto do Corcovado foi colocada, com a contribuição do povo brasileiro, a estátua do Cristo Redentor, que identifica a nossa paisagem e que preside solene e altaneira a paisagem que a tantos encantou. De tantos outros episódios centrais para nossa história e cultura serviu o Rio de cenário e, mesmo com a transferência da capital, não deixou de exercer sua função proeminente no cenário atual como capital cultural.

Na verdade é o Brasil, “gigante pela própria natureza”, como canta o nosso hino, glorioso pela sua história e fecundo na sua cultura, que ora são reconhecidos e homenageados pela escolha de nossa cidade. Ao olhar para o Rio de Janeiro, o mundo olha para o Brasil com sua vida, seu povo, suas paisagens, sua história.

Um sentimento especial, no entanto, ocorre quando nos deparamos com a notícia: como olhar para essa paisagem e não pensar em Deus? O caminho da beleza é outra maneira de refletir sobre a presença do Eterno na vida do ser humano. Nós, que só temos este planeta para viver e morar, sentimos quão belo é aquilo com que o Criador nos presenteou e pelo qual somos responsáveis em conservar.

Como sabemos, pela história, o Rio de Janeiro é uma das sedes episcopais mais antigas das Américas e primeira sede cardinalícia da América do Sul, e, de igual maneira, é um belo e importante patrimônio católico. O Rio é uma filha robusta da Igreja, que a viu nascer e crescer. Talvez este aspecto não seja muito conhecido pelo Brasil ou pelo mundo, mas, para quem conhece a alma do Rio de Janeiro, não se pode esquecer a beleza da fé do povo que aqui vive. Não se pode falar desta cidade e de seu povo sem falar na fé arraigada e no profundo sentimento religioso que plasmaram um povo alegre, batalhador e temente a Deus. A nossa experiência de presença junto ao povo católico desta cidade maravilhosa nos faz ver a vitalidade e a beleza da fé que movimentam o coração e as atitudes de nossas comunidades. Fé que se traduz em participação, vida, trabalho social, alegria em transmitir a vida nova em Cristo. A vida fala muito mais que tantos números ou estatísticas nem sempre bem conduzidas.

Proximamente, milhões de representantes dos jovens do Brasil e do mundo reunir-se-ão nesta Cidade Maravilhosa para cantar as alegrias de Deus, expressando a vitalidade da juventude cheia de esperança em Cristo, e anunciando também como a fé cristã permanece atual, viva e portadora de amor para a humanidade.

O Rio permanecerá sempre como um povo que soube responder ao chamado de Deus para que, como cristãos, marque sempre tempos novos de transformação social. O Cristo Redentor, no alto do Corcovado, uma das maravilhas do mundo moderno, na cidade Patrimônio da Humanidade na categoria Paisagem Cultural e que é maravilhosa, continuará indicando as raízes desse povo que cada dia mais, na busca da conversão, vivenciando seu ideal de santidade, fará com que as maravilhas da paisagem possam ser reflexo cada vez maior da beleza dos corações e da vida de seu povo nesta bela troca de inspirações.

* Dom  Orani João Tempesta, cisterciense, é arcebispo do Rio de Janeiro.