No texto anterior mostrei as bases que fundamentaram o Projeto Integrado do Gás Sul Peruano, empreendimento da ordem de US$ 15 bilhões, que incrementará não só a economia da região sul como fará com que o país agregue, no mínimo, mais 2% ao PIB. Neste, tratarei dos detalhes desse projeto ressaltando, uma vez mais, que a construção total do mesmo, está CONDICIONADA à confirmação das reservas provadas nível 1P (acima de 90% comercialmente recuperáveis) de gás dos campos 57 da Petrobras e Repsol, e 58 da Petrobras.
Os 11 tomos que compõem o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), do Sistema de Transporte Andino del Sur (STAS) foram elaborados pela empresa Walsh Perú S.A. (walshp.com.pe), contratada pela empresa concessionária Kuntur Transportadora de Gas S.A.C. O processo do EIA iniciado em 2009 foi aprovado pelo Ministério de Energia e Minas através da Resolución Directoral nº 173-2011-MEM/AAE, em 07/06/2011 (minem.gob.pe).
Nota: Em 2008, o fundo de investimentos norte-americano Conduit Capital Partners, LLC (conduitcap.com) assinou com o Estado peruano o Contrato de Concessão do STAS por um prazo de 30 anos. No início de 2011, a Odebrecht Perú (odebrecht.com.pe) tornou-se sócia do empreendimento quando adquiriu 51% da Kuntur. Em 02/04/2012, a Conduit Capital resolveu sair do STAS e vendeu a sua participação de 49% para a Odebrecht Perú (direito preferencial), que passou a ser a controladora integral da Kuntur.
Baseado nestes tomos e no resumo consubstanciado de 131 páginas da Walsh Perú S.A, com os detalhes do projeto, farei a minha análise. O Gasoduto Andino do Sul é composto de duas tubulações, que correrão paralelamente, sendo uma de 30” (trinta polegadas = 762 mm) de diâmetro para o transporte do gás natural e outra de 18” (dezoito polegadas = 457 mm) para o transporte dos líquidos do gás. O gasoduto de 30” terá 1.077 km de extensão, sendo 742 km de tronco principal mais 335 km de ramais (Cusco, 12 km, 6”; Juliaca, 141 km, 8”; Matarani, 36 km, 6”; e Ilo, 147 km, 18”; pág. 4 e 14/131). Está prevista, também, a execução de um manifold de interconexão com o gasoduto (Loop sul) da Transportadora de Gas del Perú (TGP – que leva GN para Lima e Callao), que seria acionado em caso que ocorra algum problema com o gasoduto existente.
O poliduto de 18” não terá ramais ao longo do seu trajeto de 742 km, ou seja, sairá diretamente de Camisea para Ilo onde será industrializado. As tubulações sairão da região selvática de Las Malvinas (departamento de Cusco) – onde estão os campos da Petrobras e do Consórcio Camisea – numa elevação de mais ou menos 400 metros sobre o nível do mar (msnm) e rompendo os enormes desafios, atravessarão a Cordilheira dos Andes a 4.800 msnm – um dos pontos mais elevados para transporte de gás a nível mundial –, com temperaturas que chegam a -20º/-25ºC (pág. 39/131), para depois irem baixando até chegar à cidade costeira de Ilo (próximo à fronteira norte do Chile).
Na região de Ilo, está prevista, além da construção de duas termelétricas (750 MWh, cada uma), a instalação do Polo Petroquímico, que está sendo analisado pela Petroperú (petroperu.gob.pe) e Braskem (braskem.com.br, controlada da Odebrecht S.A., Brasil, ), conforme Memorando de Entendimento assinado em 24/11/11, e que deverá ter outros parceiros ainda não definidos. Segundo Sérgio Thiesen, diretor da Braskem para a América do Sul, o Polo poderá produzir em torno de 1,2 milhão de toneladas de polietileno por ano (https://gestion.pe, 04/05/12). O Polo Petroquímico será um grande indutor de desenvolvimento para o sul do Peru, pois, além de outros benefícios, dará origem à geração de 55 mil novos empregos na cadeia produtiva. O gasoduto, em função da necessidade da confirmação das reservas recuperáveis, será executado em três tramos.
Segundo declarou Jorge Barata, diretor superintendente (DS) da Odebrecht Perú (https://gestion.pe/, 25/04/12), “em junho deste ano começarão as obras do primeiro tramo do gasoduto, com uma inversão de US$ 1,2 bilhão, com finalização em 2014. No segundo tramo serão investidos US$ 3,8 bilhões e será concluído em maio de 2016. A primeira etapa consiste em construir o gasoduto até a região de Quillabamba (Cusco) e levar o gás para que se possa construir uma termelétrica” (200 MWh), o que aumentará sobremaneira a garantia de abastecimento de energia para o país, somada à massificação do gás: residencial, comercial, industrial e gás natural veicular (GNV). “O terceiro tramo, sem monto de inversão ainda previsto, chegaria até a região de Tacna, perto da fronteira com o Chile a mediados de 2020”.
Ainda segundo Jorge Barata, nessa primeira etapa “o gasoduto será abastecido com 1,7 TCF do lote 58 da Petrobras, 1,3 TCF do lote 57 da Petrobras e Repsol e 1 TCF do lote 88, do Consórcio Camisea, liderada pela Pluspetrol”. Nota: TCF – trillion of cubic feet, para o português, trilhões de pés cúbicos. 1 TCF = 0,028317 m³. Fiz uma análise criteriosa dos custos do gasoduto e posso afirmar que o mesmo está dentro dos parâmetros internacionais, considerando a sua extensão, logística e o índice de produtividade em função da enorme dificuldade de execução.
No que se refere à demanda ao longo do gasoduto (pág. 13/131), haverá um requerimento de 33 milhões de metros cúbicos de gás natural/dia (mm³/d). Como a tendência natural é sempre aumentar a demanda, pois o GN é um energético muito vantajoso, considerei um consumo médio diário de 40 mm³/d, assim distribuídos: 1º) 18 mm³/d, petroquímica e exportação; 2º) 10 mm³/d, termelétricas (1.700 MWh x 250 m³/h x 24 h, com PCI = 8.600 Kal/m³, eficiência 45%); 3º) 7 mm³/d, massificação do GN; e 4º) 5 mm³/d, reserva de contingência para o TGP.
Tenhamos presente que a empresa Netherland, Sewell & Associates, Inc. (NSAI), em seu relatório Reserves & resources evaluation – Block 88 & 56 Final presentation, de 17/05/2010, na página 11/15, considerou uma reserva provada nível 1P de 11,177 TCF de gás seco para os citados blocos, ou seja, sem levar em conta as reservas dos blocos 57 e 58 (netherlandsewell.com).
Tendo em vista os parâmetros citados mais acima, e com reservas recuperáveis de 13 TCF e 15 TCF, teríamos folgadamente assegurado um horizonte de 25 e 30 anos, respectivamente (reservas de 6 TCF podem servir como um gatilho, pois o seu horizonte é de somente 12 anos, considerando a demanda de 40 mm³/d). Somam-se a isso os bilhões de dólares referentes ao pagamento de royalties (regalias, em espanhol) que serão acrescidos em função do novo gasoduto. Para que se tenha uma ideia do que representa esse rubro, segundo relatório do Consórcio Camisea – considerando somente o sistema existente –, em 2010 foram pagos US$ 814,6 milhões; 2011, US$ 1,245 bilhão; e no mês de abril de 2012 alcançou US$ 94,9 milhões. Desde o início do projeto, em 2004, já foram pagos US$ 4,132 bilhões, de acordo com a Lei do Canon (larepublica.pe, 08/05/12).
Importante ressaltar que, de acordo com o relatório El Mercado del GLP en el Perú: Problemática y propuestas de solución, elaborado pelo Organismo Supervisor de la Inversión en Energía y Minería – Osinergmin (osinerg.gob.pe), março/2011, pág. 18/116), mostra de forma cabal que as vendas de gás em dezembro/2010 tiveram uma enorme concentração na região metropolitana de Lima com 64%; Norte, 20%; Sul, 8%; Centro, 6%; e Oriente, 2% . Não resta dúvida de que, através do Gasoduto Andino Sul, haverá uma maior democratização na distribuição do GN.
Tenhamos presente que na atualidade, no tramo da selva, há somente um gasoduto da TGP. Se, por uma razão qualquer, esse gasoduto suspender suas atividades, o Peru terá que fazer cortes no fornecimento de energia, tendo em vista que 42% da geração atual são térmicos e dependem desse gasoduto.
Assim sendo, torna-se imperativa a construção do Sistema de Transporte Andino del Sur (STAS), pois, além das vantagens elencadas precedentemente, ele não só aumentará a capacidade de geração de energia, como dará maior confiabilidade ao setor, pois, em caso que seja necessário, incrementará a capacidade do sistema do transporte central existente, através do manifold de interconexão com o TGP. Está correto o senhor presidente da República do Peru, Ollanta Humala, em ter esse empreendimento como um objetivo do seu governo.
* Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em estruturas de concreto, geração de energia, saneamento e materiais explosivos.