O cronista sem a musa
(Para ela, quando ela voltar, se o mundo houver)
O tempo é expectativa.
É o portão de ferro da angústia.
As frases não ditas são eternas.
Então, perdoe a despedida sem glamour, o texto insosso, a criatividade zerada. O amor acabou, a amizade ruiu e o papel do jornal agora é outro. Deixo apenas aquele beijo na testa que é pior do que dizer adeus.
Cronista sem jornal não é ferrari sem gasolina, é fusca sem capô, cavaquinho sem corda, praia sem chinelo, botequim sem cachaça, batata sem bife, Nelson Sargento com dentadura.
Cronista sem jornal é erro de semântica. É dialética a prazo, sem juros, em dez vezes, nas Casas Bahia. É a perda da sintaxe, do sentido. É a gramática velha, a ortografia antiga, com trema e acento nos ditongos orais crescentes.
Cronista sem jornal não tem direito ao último pedido, ao afago feminino, ao gozo embevecido. Cronista sem jornal não tem direito a voltar no tempo e pedir a leitora em casamento.
Cronista sem jornal sou eu sem você.
E uma vida para trás.
Sozinho.
* Felipe Pena é jornalista, professor da UFF, doutor em Literatura pela PUC, pós-doutor pela Sorbonne e infeliz.