Por que hoje um mercado se torna ainda mais volátil por ser global?

Em uma cidadezinha tradicional as escolhas individuais de vendedores e consumidores, de certa maneira atenuadas por um conjunto de considerações não mercadológicas, têm sua racionalidade: o sentimento de pertencer àquela comunidade, a convicção de que “nos veremos de novo” fazem com que não se pretenda, a todo instante, levar vantagem. Em escala mundial tais freios desaparecem, todos os contextos se intrometem, se interpenetram, as fronteiras se tornam porosas para a informação e o dinheiro.

O administrador de um fundo de pensão, alemão por exemplo, que, a cada trimestre, tem que prestar contas poderá de um dia para o outro tomar a decisão, muito razoável do seu ponto de vista, de retirar todas as suas aplicações nos mercados financeiros de um país de futuro incerto, por exemplo a Grécia. Como explicar essa decisão perfeitamente racional ao cidadão do país ameaçado?

Para ele, o próprio futuro, não importa o que aconteça, é inseparável do futuro de seu país, que jamais poderá ser abandonado como um investimento que deixou de ser rentável. A política supõe uma visão de conjunto, tem de cuidar do conjunto de realidades e do conjunto de relações. Teríamos que trabalhar na construção de uma comunidade de comunidades, calcadas na negociação entre comunidades políticas diferentes e em princípios comuns que as tornassem compatíveis entre si.

A heterogeneidade do mundo torna este empreendimento tão necessário quanto difícil de realizar. Mas é o único caminho realista, pois é uma ilusão esperar estabelecer um elo direto de solidariedade política entre cada suposto cidadão do mundo e esta ou aquela comunidade longínqua. O que está em jogo é a extensão das solidariedades, no interior de nossas sociedades e entre sociedades diferentes. De fato, a abertura da globalização não se justifica convincentemente nem por um critério puramente utilitário nem exclusivamente por uma questão moral. Assim, vantagens econômicas, exigência moral, tensões sociais, todas devem igualmente ser levadas em conta.

A tecnologia modifica as condições de exercício do poder, desloca o debate político, mas não cria nenhum automatismo. Será, portanto, necessário que entre sociedades que compartilhem a mesma ideia de liberdade instituições suficientemente fortes permitam efetivamente conciliar pontos de vista. Que possa existir centralização de decisão em nível global, mas que sua existência tenha se tornado possível por um conjunto de instituições que atuem também como foros no processo de globalização.

*Tarcísio Padilha Junior é engenheiro