Educando adolescentes 

Ao analisar os desafios da Educação Básica no Brasil, um consenso estabelece-se de imediato entre os pesquisadores: o principal gargalo na construção de um processo de qualidade encontra-se no Ensino Médio. De fato, na última aplicação do SAEB com resultados divulgados, em 2009, constatou-se que o 3º ano do Ensino Médio teve um desempenho sofrível: apenas 28,9% dos estudantes dominavam os conhecimentos devidos em Português. Em matemática, o pior resultado, apenas 11%.

Mudanças profundas foram propostas neste segmento de Educação e devem acarretar melhorais nos próximos anos, mas é inegável que parte deste problema inicia-se bem antes do Ensino Médio, a saber, na forma como ensinamos no Ensino Fundamental.  

Em 2009, para podermos ter um diagnóstico mais claro da situação da Educação carioca, resolvemos verificar se havia analfabetos funcionais nas séries posteriores à fase prevista para a alfabetização. Aplicamos uma prova no início do ano e constatamos a presença de cerca de 28.000 analfabetos funcionais, sendo  17.200 no 6º ano de escolaridade. O mesmo problema aparecia em Matemática. Cerca de 40% dos jovens tinham déficits sérios de aprendizagem, quando avaliados sobre conhecimentos e competências referentes à série anterior.

Frente a esta situação, que, diga-se de passagem, é melhor que a encontrada em testes aplicados em muitas capitais de estados no Brasil, não foi difícil constatar que um enorme salto na qualidade da Educação no Ensino Fundamental deveria ser empreendido. Também ficava claro que era necessário melhorar os dois segmentos do Ensino Fundamental ao mesmo tempo.

Organizamos um sistema sólido de reforço escolar e um currículo unificado, onde cada fase deveria acompanhar as características de cada etapa do desenvolvimento da criança.  Para os adolescentes, uma proposta inovadora de Educação, com um nome antigo: Ginásio Carioca. Ginásio, associado há algumas dezenas de anos com excelência acadêmica, e carioca, que não exclui, mas abraça a todos. Ou seja, busca de excelência acadêmica para todos.

O Ginásio tem por base materiais estruturados de apoio ao professor, na forma de cadernos de apoio pedagógico  e aulas digitais a serem projetadas na sala de aula, desenvolvidas por professores da própria rede com base no currículo único.  Cerca de 300 professores de sala de aula foram selecionados e, com apoio do MEC e da UFRJ, foram capacitados para preparar as aulas digitais que agora são usadas pela rede.  Da mesma forma, professores selecionados preparam cadernos didáticos para utilização dos demais.  O livro didático, neste contexto, é usado como material de pesquisa.

Com as aulas digitais, que podem ser utilizadas inclusive para reforço escolar, com vídeos, jogos e material e leituras para estudo e preparação de aulas, o professor tem instrumentos para, ao mesmo tempo, capacitar-se, facilitar sua tarefa de ensinar e envolver o aluno.

Mas não são suficientes aulas digitais, cadernos pedagógicos e livros didáticos. Para formar um cidadão e um futuro profissional, é importante fazer dele um leitor, com autonomia para estabelecer  suas preferências literárias e suas fontes de pesquisa. Deve também saber se comunicar por escrito, o que, neste mundo de avaliações em cruzinhas se torna cada vez mais raro. Assim, criamos as provas bimestrais de redação, sempre sobre o mesmo tema: o livro de que mais gostei este bimestre.  Os relatos dos professores de sala de leitura apontam um número crescente de adolescentes retirando livros e mesmo disputando os mais atraentes com colegas.

Um jovem precisa também, para avançar nos seus estudos, de uma compreensão mais clara sobre a importância do que aprende para a construção de seu futuro. Para isso, dois movimentos foram adotados: um primeiro, de Educação para valores, no sentido de fazê-lo perceber-se como protagonista de sua própria vida. Em outros termos, educar para a autonomia. O segundo movimento relaciona-se à elaboração, pelo jovem, de seu Projeto de Vida, ou seja, registrar o que sonha fazer quando adulto e pesquisar mais sobre esta opção profissional.  

Para que esta forma inovadora de ensino funcione, além de todo este esforço de colocar a Educopédia nas 419 escolas que recebem adolescentes, aumentar o acervo das salas de leitura com livros próprios para adolescentes e preparar os cadernos, decidimos escolher escolas que pudessem ser centros irradiadores de inovações para as demais, os Ginásios Experimentais. Neles, além destes instrumentos, há uma carga horária maior, com 8 horas de aula todos os dias, maior ênfase em protagonismo juvenil, com Cineclubes, disciplinas eletivas, clubes de Ciências e projetos coletivos de aprendizagem e de responsabilidade social dos jovens. Além disso, há uma “religação dos saberes”, com abordagem interdisciplinar e polivalência de professores.

Hoje são 19 Ginásios com esta proposta, sendo um deles o Ginásio Experimental Olímpico, voltado aos jovens atletas da rede. Os resultados iniciais são impressionantes, tanto em notas quanto em atitude dos alunos. As escolas têm desafios próprios de escolas que lidam com adolescentes, mas muito menos indisciplina e maior atenção nas aulas. O futuro certamente se constrói melhor quando aqueles que dele poderão se beneficiar  participam no desenho do processo.

Cláudia Costin é secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro