E se o avião cair? 

Penso em você sempre que faço o check in nos aeroportos dessa estrada. Não é a partida, nem a chegada. Muito menos a viagem ou a imaginação de tua companhia nos lugares onde nunca estás. Tampouco a nostalgia das noites em que tua presença parecia eterna. Pra ser sincero, o que te traz à memória é preencher o verso do cartão de embarque.

A moça da companhia aérea, com aquele sorriso morno e o cabelo passado a ferro no tintureiro, solicita que eu escreva nome e telefone de um contato para emergência. Que tipo de emergência? – pergunto, retoricamente, já sabendo o significado. E cravo o teu número no papel.

 Poderia ser o número lá de casa. Ou de alguém da família. Quem sabe o daquele primo distante com fama de resolver todo tipo de problema, o que, sem dúvida, inclui resgatar parentes desaparecidos no ar. Mas não consigo ser tão pragmático. É o teu nome que me vem à cabeça.

Nome não. O que escrevo são as poucas letras do teu apelido, imaginando a tua reação com o telefonema de um estanho pronunciando a palavra cujo significado é tão íntimo para nós. Tão cúmplice de nossas manias. De nossos erros. De nossas festas. O apelido que surgiu naquela noite iluminada, entre colchas roubadas e garrafas vazias. O apelido pequeno, mas definitivo. O apelido que agora ouvirás de um senhor de terno, com formação em psicologia e a voz pausada. Mas que, mesmo assim, ainda vai te fazer pensar que sou eu ao telefone.

Não haverá desespero ou sofrimento. Ninguém é obrigado a acreditar no que parece impossível. Temos a eternidade, não temos? A realidade não importa, meu amor. São os versos do Baudelaire, as músicas do Renato e as frases de Gabriel que nos unem neste umbigo literário onde habitamos. Não somos carne, somos letra. E nos momentos em que fomos carne, também houve letra.        

Quando o telefone tocar, ainda será a minha voz distante na garganta desconhecida. Mesmo que o timbre tenha mudado e o texto seja tão ruim quanto o daqueles experimentalistas do Leblon. Abstraia, sublime, idealize. Leia as cartas que mandei, os e-mails que você armazenou, os livros que escrevi só para que você olhasse pra mim. Eles também não são grande coisa, mas são seus.

Onde quer que eu esteja, continuo a trocar os pronomes e a desrespeitar a pontuação. Por aqui não há regras gramaticais ou fiscais da semântica, embora sempre tenha gostado de ambas e, só por isso, tivesse vontade de mudá-las. Ainda ouço tuas leituras noturnas, a revisão das frases, os poemas em voz alta. Nas crônicas deste lugar, só se fala na menina cujo apelido sempre me inspirou. Não sabia que você era tão famosa!

Tenho que me despedir. O avião vai partir e é preciso desligar os aparelhos eletrônicos. Uma aeromoça pediu que eu ajeitasse a poltrona e apertasse o cinto de segurança. Disse que havia mudado de ideia, não queria mais viajar. Mas ela me mostrou as portas fechadas e o sinal luminoso indicando a decolagem. Não há mais tempo. Mantenha o telefone no gancho, verifique o servidor da internet e não se esqueça de pagar a conta do celular.

Sei que te amo porque, na hora do embarque, é a tua imagem que me conforta.

Além de jornalista e escritor, Felipe Pena é professor da UFF, doutor em Literatura pela PUC, pós-doutor pela Sorbonne e autor de 11 livros, entre eles o romance “O marido perfeito mora ao lado