Bullying: necessidade de uma reflexão 

É preocupante o aumento de casos de bullying nas escolas do mundo todo. A divulgação na mídia revela uma violência cada vez mais presente no ambiente escolar, mas que não é atual. Casos de agressões entre alunos, física ou emocional, revelam que estamos lidando com um sintoma social e que compromete as escolas, a infância e o futuro das crianças envolvidas, sejam elas alvo ou agressores. 

Deparamo-nos com casos de repercussão mundial e que tiveram como sustentação as bases negativas do bullying. Casos como o massacre em Columbie e, mais recentemente, o estudante T.J. Lane, que efetuou vários disparos na cafeteria da escola, são casos que denunciam o bullying como  fenômeno social que alicerça tais crimes. Entretanto, considero imprescindível analisar um pouco o tema. 

Bullying é um termo inglês originário de bully, que significa “valentão” ou “tiranete” que, especificamente, é aquele que abusa de sua autoridade ou posição para oprimir os que dele dependem. O termo bullying designa os atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa (ou grupo de indivíduos) incapaz(es) de se defender.

Este comportamento agressivo possui uma forma direta como apelidos, xingamentos, roubos e gestos ofensivos. A forma indireta está relacionada com difamações, isolamento e indiferença, ou seja, quando a vítima está ausente. Os primeiros trabalhos que discutiram o assunto aconteceram nos anos 1960 são dos psicólogos Dan Olweus, na Noruega, e Heinz Leymann, na Suécia. 

Ainda existe uma outra forma de bullying, denominada cyberbullying, que consiste em gravar as agressões em vídeo, geralmente pelo celular, e publicar a cena na internet. 

O bullying não é um fenômeno novo, é mais antigo do que imaginamos. Certamente, você pode ter sido vítima ou conheceu alguém que sofreu com estes maus-tratos. Há um aumento significativo nos atendimentos psicológicos que possuem como conteúdo implícito questões relacionadas ao bullying e que não demoram muito para se revelarem. A dor e o sofrimento são intensos e sustentam o conflito emocional do paciente. Relatos ressentidos e mágoas que não cicatrizam são comprometimentos emocionais presentes.

A vida escolar e a acadêmica não trazem boas recordações para muitas pessoas. Numa pesquisa feita na Inglaterra, em 2002, o bullying foi apontado como a principal preocupação dos pais, a frente da qualidade e dos métodos de ensino. O bullying é uma forma de autoafirmação através da agressão. O vitimizado é o receptor destas agressões. Tanto bullying como vitimização, possuem consequências desastrosas imediatas e posteriores para todos os envolvidos: agressores, vítimas e observadores.

Foi divulgado um vídeo no qual aparecem Casey Heines, 16 anos, estudante australiano, no qual era agredido com socos desferidos em seu rosto e barriga. O menino reagiu segurando o agressor e jogando-o de costas no chão. Lembro-me que assisti ao vídeo divulgado num telejornal e me choquei pela violência da imagem. O agressor saiu cambaleando, atordoado e mancando. Imaginei na época o quanto a vítima deve ter aguentado e sofrido para exteriorizar toda a sua raiva daquela maneira. 

Um caso ainda mais chocante foi o massacre de Realengo, como assim ficou conhecido. Wellington Menezes de Oliveira, 23, ex-aluno da Escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, assassinou cruelmente doze alunos,com idades entre 12 e 14 anos. Num perfil traçado pela irmã e por conhecidos de Wellington na época em que estudava, descrevem o rapaz como alguém muito reservado, tímido, que não se socializava e que sofria bullying. Lógico que estes dados são insuficientes para explicar o ato criminoso, e, tampouco, acredito que estes fatores foram preponderantes para o ato violento, mas estou convicto de que são ingredientes que acentuaram o embotamento afetivo e as fantasias destrutivas de Wellington, que abrangiam atos terroristas associados com a doutrina islâmica e uma carta deixada por ele em que transparece uma mente doentia e perturbada. 

Enquanto escrevia este artigo, me questionei sobre outro fato: os trotes universitários realizados no começo do ano letivo. Quero deixar bem claro que me refiro aos trotes violentos. Não seriam estes também comportamentos de bullying? Acredito que sim. Trotes que terminaram de forma trágica, como o famoso caso do estudante de medicina encontrado morto na piscina da USP em 1999. Hoje, me parece que já existe uma mobilização entre os estudantes e instituições para mudar o significado desta interação entre veteranos e calouros. O trote solidário, louvável, uma vez que também não seja imposto mas, sim, voluntário.

Está na hora de olhar para o problema do bullying e encará-lo com seriedade. Precisamos retomar a importância social das escolas e faculdades. Restabelecer o valor dos professores, e não me refiro apenas a salários dignos, mas ao valor de autoridade. Ao governo fica a conscientização de sua responsabilidade nos investimentos na área da educação, infelizmente esquecida e marginalizada neste país. Tudo está interligado, e a negligência de cada elo deste sociossistema poderá ocasionar novas histórias trágicas.  


Breno Rostotolato é professor de psicologia da Faculdade Santa Marcelina (São Paulo).