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Carta secreta para Caetano Veloso 

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Querido Caetano, todo mundo sabe que você não gosta do cara, mas sua mãe gosta. Só que há um detalhe importante perdido nessa inversão da lógica do Chico: aqueles que a utilizam para defender o ex-presidente, na verdade o estão atacando. Não entendeu? Tudo bem. Às vezes, eu também não entendo o que você diz, mas, mesmo assim, insisto nas entrelinhas. Então, permita que eu explique. Antes, porém, devo me apresentar. 

Sou professor universitário aqui no Rio de Janeiro. Trabalho na Federal Fluminense, onde leciono jornalismo e oficinas de literatura. É uma escola pública, daquelas que têm paredes descascadas, cadeiras quebradas e lousas destruídas pelo tempo. Há quatro anos, também trabalhava como comentarista político na emissora estatal, a TV Brasil, mas fui censurado por criticar o governo e acabei expulso do programa.

Claro que isso não vem ao caso.  Só mencionei o ocorrido em respeito ao Nelson Rodrigues e suas ideias sobre a unanimidade. Assim como você, também votei chorando no operário do ABC. Em 1989, carregava bandeiras do partido e enchia meu carro de adesivos, além de entoar aquele jingle de campanha gravado por artistas e intelectuais. Era o homem lá e eu aqui, emocionado, estudando Marx e Marcuse, e me preparando para, um dia, também influenciar na política. 

Cômico e trágico, né não, Caê? Doce ilusão de um doce bárbaro que se achava a vanguarda do universo e ainda virou professor porque queria mudar o país e o mundo. Fala sério, meu rei: vinte anos depois, você ainda acha que os intelectuais e artistas influenciam na eleição? Temos alguma missão a cumprir nesse mundo de maletas e cuecas? Somos referência para aqueles que votam?  

Então por que todos ficaram ruborizados quando o Aderbal chamou a moça de peruca de futura presidente na eleição passada? O sujeito apenas declarou o voto, nada mais. Qual é o problema? Não houve nenhum séquito de eleitores se guiando pela opinião divina de um dramaturgo. Aliás, com o perdão pelo trocadilho, quem montou esse drama não entende nada de teatro. 

Dramáticos mesmo somos nós, artistas, intelectuais, escritores. Eu, por exemplo, morri de ciúmes quando você elogiou o livro do Agualusa sobre o dia em que zumbi tomou o Rio. No ano passado, relancei o romance Fábrica de diplomas . Você leu? Pois é, eles também não. Pra dizer a verdade, apenas 18 desavisados compraram o livro, que é uma trama policial em que discuto a falência do sistema universitário brasileiro. Como eu queria que você me elogiasse, Caetano! Só assim me transformaria em um Best-seller e poderia mudar os rumos da educação no país. 

Mas você não leu, Caetano. E a educação continua essa vergonha. Culpa sua, única e exclusivamente sua. Milhões de jovens semialfabetizados continuam vagando por universidades de pífia qualidade por causa de sua irresponsabilidade. Não é de estranhar que o cara lá de Brasília faça pouco caso daqueles que têm diploma. Muito menos que continue a errar conjugações e regências.  A culpa é sua, Caetano. Foi você que não leu o livro. 

E ainda querem me convencer que somos formadores de opinião. Faça-me rir! Não servimos nem para fiscais de urna. Cultura não rende voto, meu querido. Ninguém quer saber o que pensamos ou discutimos. Há coisas mais importantes: o saco de farinha doado pelo vereador, a dentadura fornecida pelo centro odontológico do deputado, a bolsa mensal para a família depositada no banco federal. Cultura pra quê?  

Nessas terras, meu teatrinho não vale meio panettone. Troco meu livro pelo seu leãozinho criado à base de acarajé e vatapá.  O que acha?  Os direitos autorais cabem no dedinho da meia do secretário, mas o orgulho é enorme. Você não vai se arrepender! Eu garanto! 

Os intelectuais “somos” chatos, herméticos e bestas. O que me faz lembrar uma certa corrente da contemporânea literatura brasileira. Mas deixa isso pra lá. Não vale a pena observar que muitos discursos acadêmicos têm como principal objetivo a eternização das cátedras e o exercício do obscurantismo. Nosso assunto aqui é outro. 

Já ia me esquecendo, Caetano: tenho que explicar a frase do primeiro parágrafo. Qual era mesmo? Sim, a relação entre a inversão da lógica do Chico e o apoio à presidente Dilma (via presidente Lula) na eleição passada. Hummmm! Esse problema é complexo. Muito Complexo.

Sabe o que é, nêgo? Tá dando uma preguiça! Posso deixar pra próxima? Tudo que eu disse aqui não passa de um arremedo insano de um velho professor metido a romancista.

Ou não.

Felipe Pena, jornalista e escritor, psicólogo, é professor da Universidade Federal Fluminense