Por um bilhete único  

Nos últimos tempos, dois assuntos aparentemente distintos invadiram o noticiário fluminense: o aumento das passagens das embarcações responsáveis pela travessia entre a Praça 15 e a terra de Arariboia e os altos índices de criminalidade em Niterói.   É provável que por esta razão, numa mesa de botequim de São Domingos, deparei-me com a original versão de um gaiato filósofo que, meio embriagado, procurava unir os dois pontos da questão.

Quando me aproximei, reconheci o Queirós, inveterado estudante, de punhos erguidos com o copo de cerveja dependurado em uma das mãos, a alardear que o principal responsável pela violência que fazia refém a população da cidade não era a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora, conforme afirmara a um jornal o prefeito Jorge Roberto da Silveira.

Ao ser questionado então sobre os sequestros-relâmpago, assaltos a banco, farmácias e restaurantes, furto de automóveis, o palestrante de boteco, dedo em riste, respondera que o grande culpado pela proliferação da bandidagem era o fato de que as autoridades fluminenses custaram tanto a decidir sobre o aumento das passagens das barcas que os marginais resolveram atravessar a Baía de Guanabara antes que o preço saltasse para R$ 4,80. “–– Quer dizer então, Queirós, que, se fosse autorizado o aumento dos bilhetes das Barcas Rio-Niterói, a população não se encontraria às voltas com a violência urbana que apavora Icaraí, São Francisco e adjacências?” –– perguntou-lhe Abigail. 

Depois de pouco refletir, o eufórico patusco obtemperou que, por ter sido autorizado o acréscimo de quase cem por cento na passagem da embarcação, a única solução seria implementar o programa Bilhete Único, para que os traficantes de drogas pudessem retornar ao Rio de Janeiro, sem maiores consequências para os niteroienses, que estavam pagando o pato por um bem sucedido projeto de segurança. “–– E digo mais, camarada Biga, enquanto a vagabundagem não conseguir o valor da passagem, vai ser um tal de assalto à mão armada, saidinha de banco, carteira batida por trombadinha, furto de cordão e relógio...” “–– Ora, só me faltava agora era esse governo fascista dar Bilhete Único e Bolsa Família para bandido desempregado!...” –– explodiu Tonhão, funcionário da biblioteca, que frequentava o Baixo UFF.

A intervenção não acovardou o sujeito que parecia disposto a polemizar por intermédio de sua originalidade, maestria e engenho: “–– Desempregado não, compadre, pra bandido de carteirinha assinada com direito a aviso prévio, período de férias e fundo de garantia!”. “–– Vai ver se eu estou lá na esquina plantando bananeira, Queirós!”. “Não é nem por mim que eu falo, não, porque se for preciso eu atravesso a nado até a Ilha do Governador”. “Pois é, ao invés de Bilhete Único, a polícia devia era obrigar vagabundo a nadar com as mãos amarradas até a Praça 15”.

“–– Muito me admira um bibliófilo de seu calibre ter a cara de pau de fazer apologia à pena de morte”. “­–– Ora, quem foi mesmo que disse que bandido bom é bandido morto?” –– fustigou a militante estrábica de esquerda. “–– Acho que foi o Tenório Cavalcanti ou o Zito”. “–– Olha, gente, sem brincadeira –– interrompeu o estudante profissional de física –– se o Cabral não aprovar logo o aumento do pedágio da Via-Lagos para, no mínimo, uns R$ 35, Cabo Frio há de comer o pão que o diabo amassou com a malandragem carioca”. “–– Meu nobre Queirós, por gentileza, faça-me um obséquio, peça a conta ao Madalena, porque eu já estou meio bêbado, e o meu ouvido não é penico; ‘tá bom, parceiro?” –– encerrou a peleja o bibliotecário.

Quando o velho e bom malandro percebeu que a situação pendia para o arremate pecuniário e não dialético, antecipou-se a solicitação do cúmplice de copo e soltou mais uma de suas antológicas pérolas, em se tratando de sobrevivência boêmia: “–– Segura essa com a Biga, Tonhão, porque, conforme eu havia lhe dito, se o governo não libera logo o Bilhete Único e eu pago a minha parte da conta, ou eu começo a dar braçadas até o outro lado da poça d’água e me torno campeão de natação na Olimpíada de 2016, ou reforço o coro dos marginalizados e saio com um trabuco na mão a suplicar com autoridade: “–– Mãos ao alto, perdeu!”  

Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autordos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco