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Enriquecimento humano 

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A inteligência dos ecossistemas, em contraste com tantas instituições humanas, manifesta-se na tendência predominante para estabelecer relações de cooperação que facilitam a integração dos componentes em todos os níveis da organização; não é transferência de controle, mas organização da complexidade. Nossa visão cartesiana de reduzir fenômenos complexos a seus componentes básicos, e de procurar os mecanismos através dos quais esses componentes interagem, tornou-se tão profundamente enraizada em nossa cultura que conceitos ou ideias que não se ajustavam a essa visão não foram levadas a sério e, em geral, foram desprezados.

Nossos processos de produção produzem atritos sociais e dissipam parte da energia e dos recursos da economia em atividades improdutivas. Os custos de atividades improdutivas —  manutenção de tecnologias complexas, administração de vastas burocracias, controle da criminalidade, etc — absorvem uma parcela crescente do PIB. Ao invés de neutralizarem seus produtos residuais, indústrias continuam a despejá-los em outro lugar, algo que num ecossistema finito simplesmente não existe. Talvez o aspecto mais trágico seja o fato de que perigos à saúde são causados não só pelo processo de produção mas pelo consumo de muitos dos artigos que são produzidos e promovidos por campanhas maciças de publicidade para alimentar a expansão econômica.

Muitos dos problemas sociais e econômicos atuais têm suas raízes nos dolorosos ajustamentos de indivíduos e instituições a valores em transição em nossa época, como  a ganância. Pessoas que têm de lidar com estruturas, organizações ou empresas de dimensões inumanas sentem-se invariavelmente ameaçadas, despojadas de sua individualidade. Daí ser cada vez maior o número de pessoas que recorrem ao abuso de álcool e drogas. Embora o álcool continue causando mais problemas para a saúde individual e social do que as demais drogas, outros tipos de abuso de drogas representam uma significativa ameaça à saúde pública — tranquilizantes, sedativos, estimulantes e antidepressivos.

A experiência de nos sentirmos saudáveis envolve a percepção de equilíbrio e integridade entre os vários componentes do organismo e entre o organismo e seu meio ambiente. Como fazê-la em meio a ar poluído, ruídos irritantes, congestionamentos de tráfego, e tantas outras fontes de estresse físico e psicológico? Num meio ambiente finito, tem que existir um equilíbrio dinâmico entre crescimento e declínio: ao invés de expandir cidades em grandes centros urbanos, descentralizar as populações; em vez de desenvolver tecnologias que afetam o meio ambiente de forma ignorada, criar tecnologias adequadas à aplicação regional por indivíduos e pequenos grupos.

Reavaliar nosso processo de crescimento indiferenciado num contexto ecológico significa transcender as conotações de acumulação material para conduzi-lo ao sentido mais amplo de enriquecimento humano.

Tarcisio Padilha Junior é engenheiro