Pedagogia ausente 

        A matéria-prima representava entre 30 e 40% do valor do automóvel na primeira metade do século passado; num componente eletrônico, atualmente, menos de 1%! Na formação de valor é, objetivamente, cada vez mais difícil identificar os componentes materiais.

        O valor nasce da inclusão em redes. O espaço das redes é um campo de forças, onde a vontade de aumentar o número de conexões é contrabalançada pelo medo de perder o controle das redes já constituídas. A informação permanece como a base do poder, mas, numa sociedade  organizada em rede, serve primariamente para adquirir mais informações. Circulação de informação e integridade dos procedimentos são necessidades naturais para a ação dos agentes econômicos, assim como redução do número de grandes decisões no nível mais alto das instituições e multiplicação das pequenas decisões descentralizadas.

        Organizar empresas sob a forma de parcerias significa que o capital mais precioso de uma empresa é a soma das competências que ela soube agregar. Mesmo que a empresa moderna se tenha tornado uma das modalidades da comunidade humana, não pode ser reduzida a uma lógica puramente funcional. Por não existir empresa coletiva cujo bom êxito duradouro não contenha uma parte de interesse público, não há que falar numa separação absoluta entre interesses privados e interesses públicos. A fragmentação do Estado numa multiplicidade de instituições autônomas de interesse público confere vitalidade ao tecido social e contribui para a melhor administração dos interesses públicos.

        Os valores partilhados entre diferentes comunidades são o produto de um debate público que irá nos lembrar o caráter contingente de toda comunidade humana, produto de uma decisão política na qual a razão tem que se expressar. A exigência de razão é provavelmente a questão mais difícil e a mais importante para a vitalidade da democracia. Reduzir a distância entre comunidades diversas não significa apenas melhorar as condições funcionais da sociedade. Faz supor que o compromisso se torne a regra e, igualmente, que instituições fortes organizem entre as comunidades humanas as mais sólidas vinculações, numa negociação permanente e múltipla.

        Mais do que técnica de controle do poder, a democracia como experiência de comunidade política confere o poder aos cidadãos. Quanto maior for a ausência de comunidade política ou de convicções compartilhadas, quanto mais estiver disseminada aquela espécie de indiferença desiludida, que cria terreno propício a todas as influências e aumenta a volatilidade de opiniões, mais a democracia estará ameaçada. Seria realista querer reduzir a distância entre comunidades diversas mediante uma ação coletiva coordenada?

                    Efetivamente, isso supõe uma pedagogia ativa dos partidos políticos, ausente hoje no país.

Tarcisio Padilha Junior é engenheiro