O arrastão que levou Elis

Passou a data, eu sei.  Outros temas que pareciam urgentes me pressionaram. Assuntos que diziam respeito aos vivos de agora, da história.  Eram suas vidas que estavam em questão, e isso não permitia adiamento. Porém, é tempo sempre, e mais e quanto, para falar de uma imorredoura artista.  Viva na memória e no lastro estético da humanidade.  Viva em Deus, que lhe deu o dom divino da música que saía qual instrumento de sua privilegiada garganta.         

E eis-me aqui, em pleno fevereiro, a homenagear Elis Regina.  A Pimentinha, o furacão de voz potente e aveludada.  Jeito de menina e coração maduro de mulher. Sorriso maroto escondendo dores e amores. Temperamento forte, que picava feito pimenta na boca, fazendo língua arder e olhos chorarem.  Arte que explodia em beleza e maravilha, fazendo a baixinha ganhar estatura de gigante e os ouvintes vibrarem em uníssono, arrastados por seu canto.          

Arrastar...era isso que Elis mais sabia fazer. Arrastar a plateia com seu canto, com os movimentos de seu corpo, sua vibração única  e incontida. Arrastar a imaginação dos que a ouviam e imaginavam, inspirados por sua voz única e inconfundível, praias e redes cheias de peixes, águas caindo em março e fecundando terra e fechando os caminhos.  Arrastar o público em uníssono entusiasmo e delírio musical, acompanhando o movimento de moinho de vento de seus jovens braços.         

Sou da geração que Elis “arrastou”.  Arrastou com sua voz, com seu canto, com seu repertório impecável, com sua voz inigualável, a experiências de plenitude de vida e gozo musical. Arrastou para um novo tempo, uma nova etapa de viver.  Nós e o Brasil estávamos passando por profundas transformações.  E a força vulcânica da arte de Elis Regina ajudou a nos “arrastar” para uma esperança que, para muitos de nós, já não parecia possível. Ouvir a vibrante voz da Pimentinha conclamando a entrar no mar e acreditar numa pesca milagrosa quando o mar parecia literalmente “não estar para peixe” foi algo inesquecível.         

Tive a oportunidade de acompanhar toda a sua trajetória. Conscientizei-me com suas canções de protesto:  Upa Neguinho,EstatuinhaDeus com a família.  Chorei muito  e sentidamente com Eu preciso aprender a ser só.  Vivi romance empolgante com Falso brilhante.  Rezei tanto e tantas vezes ao som de Romaria, que até hoje facilita o encontro de tantos e tantas com Deus.   

E vibrei, com tantos, com quase todos, quando O bêbado e a equilibrista nos fez lembrar que não havia que deixar de sonhar com a “volta do irmão do Henfil e de tanta gente que partiu num rabo de foguete”.        

Depois, tão cedo, tão prematura, a notícia de sua morte.  Notícia triste, tão triste que não apenas o Brasil chorou mas o mundo inteiro.  Perder tão cedo uma artista assim completa, assim agraciada, assim vital, era um empobrecimento cruel que nos golpeou duramente.  E do qual até hoje não nos recuperamos completamente. Outras artistas – genialmente talentosas algumas -  vieram simultânea ou posteriormente a Elis.  Mas há um lugar ocupado por ela, onde até hoje existe um vácuo.  Sua unicidade ainda é um fato na constelação privilegiada que ilumina a arte brasileira.         

Pois que artista algum dia pensou em inscrever a própria voz, como se fosse um instrumento, na Ordem dos Músicos do Brasil?  Ela o fez.  E bem o fez, pois sua voz era em realidade um instrumento, puro e melodicamente afinado pelo próprio Criador, que conhecia os sons corretos e absolutamente adequados a emitir a cada instante e momento.  A voz de Elis, com suas pregas e cordas vocais, era algo por demais precioso para não figurar ao lado de oboés, violinos, cellos e etc.         

Aos 36 anos ela se foi.  Certamente ficaria triste se soubesse que hoje quando se fala em arrastão não se pensa na vibração de alegria da canção de Vinicius e Edu Lobo que ela imortalizou.  Arrastão hoje, Elis, infelizmente significa algo feio e triste. São muitos meninos pobres e infelizes, descendentes diretos do neguinho com o qual você fazia Upa, que não encontram sentido para suas vidas vergadas pela injustiça e pela opressão que herdaram.          

E, então, encontram no furto e no roubo o gesto com o qual expressam sua raiva, sua não conformidade com o estado das coisas como estão, seu desejo de aceder ali aonde as classes poderosas não lhes permitem chegar. Arrastão é sinônimo de violência, de desordem, de caos, não da alegria esfuziante que você cantou. O “Brazil” que não conhece o Brasil e que nunca foi ao Brasil que você denunciou com seu canto continua ativo.  Infelizmente. São necessários mais talentos como o seu para exorcizá-lo.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e escritora, é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Autora de 'Simone Weil - A força e a fraqueza do amor' (Ed. Rocco)