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Poleiro de pato é no chão 

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Salvo engano era um 25 de janeiro por volta das onze horas quando o filósofo e advogado José Guatemozin que, qual gato escaldado com pulga atrás da orelha, andava desconfiado com tanta tragédia na terra de São Sebastião. Sentou-se no bar Amarelinho na Cinelândia; e pediu ao garçom uma dose de café que passarinho não aprecia com salame, azeitona e queijo. Ao degustar o gole vespertino, o bom Guatemozin recordou-se de que nos últimos tempos era um tal de bonde desgovernado, bueiro voando pelos ares, ônibus em chamas, dilúvios de fazer inveja a Noé e São Pedro, embarcação a chocar-se na Praça 15...

De fato era tanta catástrofe que o folclórico boêmio titubeava ao folhear os classificados até que deparou-se com a seguinte notificação: “Precisa-se de austero jurisconsulto para trabalhar em incorruptível escritório de advocacia. Salário: R$18.000,00 – Endereço: Edifício Liberdade – 10º. Andar – sala 1002 – 14:00 às 18:00”.

A princípio estranhou o adjetivo “incorruptível” do anúncio jornalístico; todavia, mais forte fora a impressão causada pela remuneração e, sobretudo, pela inconfundível exigência referente ao profissional experimentado etc. É verdade que logo imaginou os respeitáveis vencimentos em sua parca conta bancária, o que poderia lhe possibilitar uma velhice tranquila loureada pelo engenho e maestria nas bifurcações jurídicas do Código Penal e adjacências criminalistas.

Como o sujeito era tirado a devaneios e quimeras, concebeu um futuro invejável a desfrutar com a patroa as delícias de uma vida pequeno-burguesa: geladeira abarrotada de frios e verduras, bons restaurantes com bacalhau à farta, terno de linho, reforma do apartamento, viagem a Buenos Aires... O menestrel das ciências penalistas começou a arquitetar que poderia resolver o problema financeiro do genro endividado, retirar a joia do prego, acertar a conta com a Receita Federal e saldar a mensalidade escolar dos netos...

Tanto fustigou o imaginário do candidato ao emprego que, já se sentindo abastado o suficiente para almejar aquele filet mignon à parmegiana com purê de batatas e arroz à grega, Guatemozin solicitou sem remorso o prato mais caro da tradicional casa de pasto, acompanhado de um diplomático vinho tinto português. Fartava-se com alimento e bebida, torta de morango e café, quando se dera por consultar o relógio de bolso e constatar que lhe restavam apenas dez minutos para não se atrasar para tal entrevista de emprego. Levantou-se de supetão, sacodiu o paletó embaçado pela história, ajeitou os ralos cabelos brancos e saiu um tanto bêbedo quanto empanzinado a arrotar o odor de camarão da empada misturado com água da fonte que o gambá se refresca.    

“A vaga há de ser deste venerável legista bissexto” – repetia em voz baixa para si como a se convencer de sua força de trabalho e virilidade intelectual. Ao chegar ao edifício, em razão do tumulto à porta, observou que não seria tão fácil abocanhar a colocação de jurisconsulto; contudo, não desistiria em hipótese alguma por não ser homem de desanimar diante dos obstáculos do destino. O malandro percebera que o melhor a fazer era mesmo enfrentar a fila de empáfia e gravata, de modo que puxou conversa sobre futebol e política, reclamou do calor, fez graça com um moleque com ares de recém-formado e contou piada de português.

No momento em que fora convocado a se apresentar ao futuro patrão, Guatemozin não se demonstrou enferrujado em suas convicções eruditas de botequim. Ao contrário, o concorrente ancião esbanjou teorias sobre Kant e Rousseau, discursou sobre a tese de Einstein, desconstruiu Pitágoras, esconjurou a República platônica e subestimou Nostradamus... Foi tão convincente que garantiu o primeiro lugar com garantia de imediata contratação, para começar já na manhã seguinte...

Retornou ao Amarelinho, reabriu a conta que, por sinal, ainda não havia sido paga, ofereceu cerveja a desconhecidos, enfim, gastou o que não podia por conta da empregabilidade e o progresso pátrio. No primeiro dia de labuta, a ressaca moral só não foi maior do que a surpresa ao ler sobre o desabamento dos três prédios do centro da cidade. Foi então que se lembrou de que sua avó quando ele era criança sempre lhe dizia que poleiro de pato é no chão. 

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco