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 Suba a bordo, cazzo!... 

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Uma velha raposa conselheira me confidenciou que, mal comparando a crise flamenguista com o naufrágio da embarcação de origem italiana, o principal responsável pela catástrofe do Costa Concordia da Gávea, o Titanic rubro-negro, foi de fato o capitão de fragata Wanderley Luxemburgo. Disse-me também o felpudo mamífero de bengala que toda a tragédia começou a se esboçar quando o soberbo marechal solicitou aos dirigentes uma tripulação composta de reforços do nível técnico de Montijo e Vagner Love, enquanto que o clube viabilizou as pífias contratações de Magal e Itamar, que, verdade seja dita, ironizou o corneteiro ancião de pince-nez, mais se aproximariam de uma dupla sertaneja do interior de Goiás do que de jogadores de futebol.  

Contrariado, ao prever o desastre esportivo anunciado pela proximidade do arquipélago Real Potosí, o oficial de mar e guerra Luxemburgo sinalizou que seria impossível seguir o itinerário estabelecido pelo Flamengo, de vez que o pacote turístico do cruzeiro abrangeria Londrina-Bolívia, com escala em São Paulo para enfrentar o Corinthians... Antes deste jogo, porém, a poderosíssima Patrícia Amorim recebera um telefonema de Assis, irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, que exigia o pagamento de aproximadamente R$ 4 milhões prometidos pela Traffic e a visita de uma morena de perna grossa para o craque dentuço se divertir na concentração.  A presidente argumentou que o Deivid também tinha dinheiro de direito de imagem a receber e, no entanto, permanecia calado em seu canto sem dizer cobras e lagartos nem reivindicar a louraça do É o Tchan. “– Ora ora, cá entre nós, mas quem deveria ressarcir os cofres flamenguistas, com juros e correções monetárias por denegrir a imagem do clube, não seria o inepto atacante rubro-negro? – indagou o maledicente escorpião de terno e gravata. “– O fato é que nos bastidores –– prosseguiu sarcástico o veterano bisbilhoteiro –– , o que se fala à boca miúda é que, na Gávea, enquanto a Traffic rasgava dinheiro, os cartolas gargalhavam como aquele neném da propaganda do Itaú...

Foi neste momento que o vice-presidente de finanças, Michel Levy, abruptamente interviu acima do joelho ao asseverar que o problema consistia em um ou dois marqueteiros de plantão, que estavam querendo ver o circo pegar fogo para não aplaudir o palhaço... Indignado, o mulato comandante da caravela saiu em defesa dos jogadores ao alegar que os atletas eram excelentes profissionais que, inclusive, classificaram o time para a tal pré-Libertadores das Américas. Se for pensar bem, instigou o corneteiro decrépito de muleta elétrica, marketing legítimo foi a esdrúxula contratação do ídolo de Quintino para o departamento de futebol. Entretanto, quando a vaca foi para o Ninho do Urubu, o velho e bom Luxa foi acionado para apagar o incêndio causado por nepotismos e negociatas...  

Em retorno ao assunto, pode-se anunciar que foi mais ou menos quando o polêmico zagueiro Alex Silva resolveu reclamar publicamente do atraso de salário... Dizem as más línguas que, aliciado pelo Santos, o Pirulito pulou para fora do barco antes da viagem ao inóspito território de Evo Morales.  Aquele mesmo mamífero ardiloso do Conselho Deliberativo do Clube de Regatas Flamengo segredou-me que, quiçá, a fuga do desastrado beque-central foi o grande reforço da pré-temporada rubro-negra! O trágico episódio seguinte foi a inusitada deserção do triatleta Thiago Neves que, a nado, atravessou a Lagoa Rodrigo de Freitas, correu até Copacabana e, ao alugar uma bicicleta cor-de-abóbora, pedalou até as Laranjeiras para os braços de Abel Braga.

Todavia, a gota d’água foi o flagrante de Ronaldinho Gaúcho com uma mulher misteriosa sem autorização contratual... Fato este que motivou o pedido de demissão do treinador e o subsequente diálogo entre Patrícia Amorim e Wanderley Luxemburgo, gravado pela Capitania dos Portos.

PATRÍCIA AMORIM: Escute-me, pelo amor de Deus, não abandone a embarcação, porque há pessoas a bordo... Dirija-se com a sua canoa mesmo furada para debaixo da proa do navio... Suba a bordo e me diga logo aos passageiros que ao menos o Love está por vir...

LUXEMBURGO: Mas a senhora já se deu conta de que está tudo escuro e não vemos nada a um palmo do nariz?

PATRÍCIA AMORIM: Está tudo às escuras, e você quer voltar para tomar vinho na Barra da Tijuca? Ponha o colete salva-vidas e diga-me o que se pode fazer com a comissão técnica e o elenco milionário. Abandonar é mais do que desertar, Luxemburgo, é tirar o Código Futebolístico de Ética...

LUXEMBURGO: Que fique claro que não abandonei o navio, presidenta, pois caí foi numa armadilha de salvamento...

PATRÍCIA AMORIM: Suba a b-o-r-d-o, cazzo!...

LUXEMBURGO: Quer saber de uma coisa, Patrícia Amorim? Suba a bordo a senhora, que além do mais foi campeã de natação, porque eu a bem dizer ainda nem aprendi direito a boiar nas águas da Baía de Guanabara...

E soube-se que o Wanderley Luxemburgo pegou o boné e, já no chuveiro do vestiário, desandou a cantarolar “Ô marinheiro, marinheiro / Marinheiro sou / Quem te ensinou a nadar / Marinheiro sou / Ou foi o tombo do navio / Ou foi o balanço do mar”.

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco