A derrocada da União Soviética guindou os Estados Unidos à condição de única superpotência mundial, no exercício de uma hegemonia incontestável, sob a égide da Pax Americana. Contudo, vale lembrar que essa situação não é de todo estável, uma vez que, além de uma resistência externa à universalização do domínio americano, falta coesão interna sobre o papel dos EUA no mundo. Mesmo assim, apesar dos percalços, os Estados Unidos vêm expandindo e consolidando sua supremacia mundial, garantindo, desse modo, os interesses da sua elite de poder. Essa garantia se dá pelo inigualável poderio bélico e por um nível de competitividade que lhe garante uma hegemonia econômica em escala planetária.
Historicamente, sabe-se que o ingrediente que alimenta o projeto imperial americano é a espoliação das riquezas dos países periféricos. De posse de grandes benefícios a baixíssimo custo, ao garantirem o controle dos maiores mercados do mundo, ao longo do século 20, os Estados Unidos puderam, no início do século 21, dar-se ao luxo de gastar trilhões de dólares em guerras de rapina, como as do Iraque e do Afeganistão. Informe-se que esses dois conflitos, herança maldita mantida por Obama, se deram ao arrepio do direito internacional e com o silêncio da ONU. Pela primeira vez, o mundo se viu diante de um unilateralismo decisório explícito que inaugura uma nova ordem, gestada pela antiga ordem da globalização: é a ordem de um mundo unipolar, onde todos os países do mundo passam a gravitar em torno dos interesses norte-americanos. Esse é o traçado geopolítico vigente, onde os interesses ianques estão sempre em primeiro lugar, acima do bem e do mal, protegidos pela diplomacia do porrete.
Com o vendaval das crises cíclicas do capitalismo sacudindo, neste início de milênio, a economia global, os Estados Unidos, atolados nos custos colossais de duas frentes de guerra, veem-se já na contingência de retirar, imediatamente, as suas tropas do Iraque e programar uma retirada paulatina e honrosa do Afeganistão, na certeza de que, após dez anos de combates, não vencerão o movimento talibã. Essas medidas seriam uma compensação aos eleitores do Partido Democrata, descontentes, entre outras coisas, com o desemprego galopante. Por outro lado, Obama tem que lidar com a insatisfação do complexo industrial-militar, ávido por uma maior acumulação de capital. Nesse sentido, Obama abandona o discurso da reforma do sistema de saúde e bandeia-se para o lado dos senhores da guerra, do Pentágono. Em equilíbrio precário, Obama dá uma no prego e outra na ferradura, buscando arrefecer a pressão social em período pré-eleitoral, ao mesmo tempo em que deixa subentendido aos produtores de armas que a torneira de recursos financeiros continuará aberta. O resultado dessa aproximação, de cunho belicista, é a manutenção de uma política externa agressiva que não respeita a autodeterminação dos povos e impõe os desígnios americanos a ferro e fogo. A negociação dá lugar ao saque e à matança. É a pirataria sem espadas, mas com armas de última geração. No lugar de líderes mundiais de estatura moral e política, nos dias de hoje, temos bucaneiros, de mãos ensangüentadas, decidindo o destino da humanidade.
Incapaz de resolver os problemas domésticos e submisso a uma direita fundamentalista e irada, só restou a Obama rezar pela cartilha dos que defendem soluções apocalípticas para as relações internacionais. Não é sem razão que ele anuncia a nova estratégia militar dos EUA. Nela, Iraque e Afeganistão deixam de ser prioridade militar, cedendo lugar ao eixo Ásia-Pacífico. A nova estratégia, elaborada pelo Pentágono, com Obama servindo de mero porta-voz político de interesses poderosos, prevê apenas uma redução reversível nos gastos com a defesa, nos próximos dez anos, sem atingir o orçamento corrente das Forças Armadas. Assim sendo, o orçamento da defesa do país continuará sendo o maior entre as vinte nações mais poderosas, mantendo incólume a capacidade de intervenção armada dos norte-americanos, em qualquer lugar do planeta.
A nova estratégia americana prevê uma redistribuição do efetivo pelo mundo, com destaque para o aumento do número de militares na Ásia, de maneira a fazer frente à crescente influência da China na região. Conforme o novo planejamento, os EUA manterão bases no Japão e na Coreia do Sul, para conter eventuais tentativas, por parte do gigante asiático, de bloqueio à atuação americana no Mar do Sul da China, área rica em petróleo e uma das principais rotas comerciais da Ásia. Fica claro, no documento estratégico, Sustentando a liderança mundial dos Estados Unidos: Prioridades de defesa para o século 21, que os interesses econômicos dos EUA estão intimamente ligados ao Pacífico asiático e, para defendê-los, é necessário maior investimento em recursos cibernéticos e poder aeronaval.
Embora essa doutrina militar, mais ágil e flexível, situe a China como a principal nação inimiga dos EUA, ela está longe de expressar o desinteresse do império americano pelas riquezas e a importância estratégica de outros continentes, mormente a América do Sul. Com a descoberta do pré-sal, as mãos rapaces de Tio Sam se voltam para o Brasil, no momento, os seus olhos e ouvidos na região.
Thelman Madeira de Souza é médico. -[email protected]