Cultura tecnológica

Com frequência uma ferramenta é inventada antes que seu objetivo principal tenha sido inteiramente compreendido. Uma vez que ela é encaixada em seu lugar, progressos tecnológicos passam a pressionar o público para que invente ou encontre utilizações para a ferramenta inventada.

Assim foi com a internet. Adotada para facultar aos cientistas das universidades a troca de informações, somente quando inventaram um software que simplificava o acesso fácil e gratuito ao programa é que as pessoas de fato começaram a compreender a oportunidade que a internet oferecia.

O público faz com que uma tecnologia se torne grande, e ele sempre precisa adaptar a maneira como está fazendo as coisas de modo a tirar o máximo proveito da nova tecnologia. Para que qualquer ideia possa ser compreendida, ela deve ser apresentada de forma que o público possa reconhecer nela um padrão em sua mente. A cultura valoriza o papel ativo desempenhado pelo público ao longo de todo o processo envolvido. O que faz com que algo seja culturalmente valioso e, portanto, efetivamente considerado excelente?

Pelo mundo todo, cada cultura desenvolveu algum tipo objetivo de padrão de excelência, de modo que ela possa identificar, por exemplo, o melhor livro, em vez de deixar isto por conta de um critério pessoal de excelência. Historicamente, a maioria das culturas seleciona o que é excelente com a orientação dos mais instruídos. Possuir um critério objetivo para avaliar a excelência incentiva os autores mais jovens, além de ajudar a maioria a decidir o que vale a pena e o que é merecedor de sua atenção.

Como cultura tecnológica que somos, estamos hoje num estágio de transição. E este nos proporciona uma rara oportunidade. De fato, o aumento desmesurado do público e do número de contextos para a apresentação de uma obra oferece uma oportunidade para que o primeiro se torne mais culto e, assim, gradualmente venha a desenvolver seus próprios novos padrões de excelência. A avaliação da excelência é uma responsabilidade imperativa que todos assumimos quando nos tornamos parte de uma cultura. Os públicos que desenvolvem padrões de excelência podem se tornar melhores ao compreender que a excelência os inclui. Sem estar conscientes disso, a qualidade da experiência frequentemente se deteriora.

Por vezes, para mudar a maneira como pensamos, somos obrigados a ver as coisas de um ângulo novo. Livros como Terra dos homens nos estimulam a fazer parte de uma nova conversa com os outros e nós mesmos sobre quem, como, por que, onde e quando somos.

Quando as ferramentas apenas ligavam uma pessoa a outra, não havia cultura de massa. Mas, à medida que novas formas de comunicação foram sendo desenvolvidas — a internet, por exemplo —, mais pessoas foram sendo, e queriam ser, incluídas na audiência. O público passou a ser capaz de escolher o que mais o atraía numa gama de opções, e assim as programações da mídia foram obrigadas a iniciar uma corrida pela audiência.

A cultura tecnológica sustenta-se por estar presente, e ligada no maior número de casas. A concorrência é pelo tamanho da audiência e não, como antes, pelo controle do desenvolvimento de ideias ou assuntos que poderiam ser significativos. Hoje, com a internet, a necessidade de uma perspectiva histórica e a capacidade de precisar a qualidade se tornam cada vez mais importantes.