Grande parte dos profissionais que tratam do assunto do pré-sal brasileiro fala muito nos bilhões de barris de petróleo, mas pouca importância dá à destinação dos bilhões de metros cúbicos (m³) do gás natural daquela área.
Nos vários textos em que tratei da destinação do gás natural do pré-sal, sempre enfatizei que só existem duas opções seguras para o aproveitamento pleno desse energético, pois a utilização de gasodutos é de altíssimo risco. Somadas à grande distância do continente – em torno de 300 quilômetros – há as correntes marítimas, além das altas pressões e do alto custo de manutenção; isso sem falar nos riscos reais de graves acidentes que poderiam gerar sérios problemas para o ecossistema.
Primeira opção: geração de energia em navios do tipo FPGP (Floating Power Generation Plant — Usina Flutuante para Geração de Energia). Esses navios-usina ficariam ancorados próximos às principais plataformas, e a energia gerada seria transportada através de cabos submarinos até o continente, onde seriam conectados às subestações. Não obstante esses cabos submarinos serem mais caros do que os convencionais, a energia gerada compensaria estes custos.
Segunda opção: já na condição de Gás Natural Liquefeito (GNL), transportá-lo em navio para tal fim para uma base de regaseificação em terra (onshore) ou fazer o transbordo para um navio do tipo FSRU (Floating Storage and Regasification Unit — Unidade Flutuante de Depósito e Regaseificação); já temos dois no Brasil, Golar Winter, no Rio, e Golar Spirit, no Ceará.
Aí vem a pergunta: mas como transformar o gás natural em GNL em alto-mar (offshore e onboard), já que o gás necessita ser comprimido 600 vezes, numa temperatura a 160 graus negativos para que se consiga sua liquefação?
Com o lançamento, em 2008, apareceu mais cedo do esperávamos a solução: da nova geração dos supernavios transportadores que levam mais de 270 mil metros cúbicos (m³) de GNL, os chamados “Q-Max”® (“Q” de Qatar e “Max”, tamanho máximo do navio que pode utilizar o terminal de GNL do Qatar.
Se já não bastasse esse benéfico aumento na capacidade de carga, já que o transporte representa quase um terço do preço final do GNL, o navio Q-Max Mozah — lançado em 17/12/2008, com 345 metros de comprimento, 53,8 metros de largura e 34,7 metros de altura, além de várias inovações tecnológicas — trouxe um inédito sistema de liquefação a bordo.
Como surgiu essa ideia? É sabido que durante o transporte, em torno de 5% do GNL, transforma-se em gás natural, que normalmente é utilizado como combustível dos próprios navios. Com a liquefação a bordo, esse gás, em vez de ser queimado, voltará novamente ao estado de GNL, e assim, praticamente, não haverá perda.
E a boa surpresa veio no dia 20 de maio de 2011, quando a Royal Dutch Shell plc ®, que é a operadora e detém 100% do campo Prelude, na Austrália, e após 10 anos de pesquisa, partiu para a construção da primeira plataforma flutuante do mundo para liquefação do gás natural (Floating Liquefied Natural Gás – FLNG). Ou seja, finalmente, aquela operação que era feita somente para evitar o desperdício de 5% no transporte passará a ser executada em grande escala a 200 quilômetros da costa (offshore e onboard), onde fica o campo de Prelude.
A construção dessa gigantesca plataforma, que terá 488 metros de comprimento (maior do que as Petronas Towers, na Malásia) e 74 metros de largura, estará a cargo do consórcio composto pela Technip ® e Samsung Heavy Industries – SHI – ®, no estaleiro Geoje Shipyard da SHI, um dos poucos com doca seca para um navio dessa dimensão.
Quando estiver inteiramente equipada e com seus tanques de armazenamento cheios, a embarcação pesará cerca de 600 mil toneladas – aproximadamente seis vezes mais do que o maior porta-aviões. Desse total, em torno de 260 mil toneladas serão de aço.
A plataforma quando em operação terá capacidade para produzir 3,6 milhões de toneladas/ano (mta) de GNL, 1,3 mta de condensado e 0,4 mta de gás liquefeito de petróleo (GLP) — volumes esses iguais a uma produção diária de 110 mil barris de óleo equivalente (www.shell.com).
No sentido de evitar desastres ambientais, a plataforma de Prelude foi projetada para suportar condições climáticas extremas, como fortíssimos ventos e ondas gigantes, além de ciclones categoria 5.
Não resta dúvida de que a liquefação offshore e onboard do gás natural será uma excelente opção para o aproveitamento desse energético nos campos do nosso pré-sal.
* Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento.