O Brasil caminha para ser a quinta economia do mundo. O único problema: seu PIB é distribuído desigualmente há séculos. Segundo o ministro da Fazenda, o país levará 20 anos para ter o mesmo padrão de vida dos europeus. Restando para os trabalhadores e excluídos sociais muita propaganda, demagogia e promessas. Eventos como Olimpíada, Copa do Mundo, Rio+20, conferências mundiais estão permitindo expor ao mundo os limites da política social brasileira.
A panaceia está instalada, novos e modernos aeroportos, sistema de transporte de massas, segurança digital e megaconstruções. Em época de festas e grandes eventos, um ingrediente da realidade social desponta: o consumo de drogas, como álcool e tabaco, entre os adolescentes, incluindo o crack com seus efeitos devastadores e a cocaína, vem aumentando.
No Rio de Janeiro, em março/11, a SMAS realizou 2.944 acolhimentos (2.476 adultos e 468 crianças e adolescentes). No Ceará em junho/11 foram apreendidas 2.769 pedras de crack com crianças e adolescentes. Levantamento, realizado em Ribeirão Preto, SP, revelou que os usuários de crack constituem a maior parte dos atendidos no Centro de Atendimento Psicossocial em Álcool e Drogas (Caps-AD). Nos meses iniciais de 2009, dos 10.500 atendimentos realizados, 6.825 foram relativos a dependentes de crack, que, muitas vezes, combinam seu uso com outras drogas. Segundo a Comissão Nacional de Monitoramento (CNM), 58,5% dos mais de 4.400 municípios pesquisados enfrentam problemas na área de segurança por causa do crack. No setor de saúde, esse número chega a 63,7%.
O crack é a cocaína em pó, adicionada de água e de bicarbonato de sódio, que é aquecida até a água evaporar, e o produto final consiste em pedras de cocaína. É fumado em cachimbos ou improvisações. Quando o cachimbo é aceso e a pedra, de uma cor que vai do branco ao marrom, pega fogo, produz um estalo, o “crack” (estalo em inglês). Para alguns especialistas ele produz efeito mais imediato e intenso do que a cocaína, com um grande diferencial: o preço. Há pedras de 10 reais, de 5 e “lasquinhas” de 1 real.
Em relação aos cracks estamos vendo muitas contradições para além das modalidades esportivas. O que está surgindo é um HIGIENISMO SOCIAL, não há interesse em resolver o problema dos dependentes e sim em tirá-los das ruas. São Paulo e Rio de Janeiro deram o pontapé inicial tratando-os com internações compulsórias e involuntárias. As comunidades terapêuticas surgem e ganham força em meio à ausência completa do Estado. O Conselho Federal de Psicologia fez inspeções em 68 entidades e verificou inúmeras violações de direitos humanos. “De forma acintosa ou sutil, banalizam os direitos dos internos, interceptando e violando correspondências, violência física, castigos, torturas, exposição a situações de humilhação, imposição de credo, exigência de exames clínicos, como o anti-HIV (inconstitucional), intimidações, desrespeito à orientação sexual, revista vexatória de familiares, violação de privacidade, entre outras”.
Para a imensa maioria dos pobres, desvalidos da sorte, para as famílias que muitas vezes não sabem onde buscar ajuda, essa é a única opção. Com honrosas exceções, as comunidades terapêuticas apresentam prática manicomial, que não fortalece os dependentes em seu meio social. A dependência química é uma questão de saúde que necessita do fortalecimento dos Caps-AD, o SUS necessita ampliar o tratamento e dar suporte aos Caps-i que absorvem apenas o serviço ambulatorial.
Aspectos que merecem reflexão: a dificuldade do trabalho em rede; ações isoladas e o império das vaidades; a necessária normatização e fiscalização das comunidades, clínicas e a internação compulsória; as comunidades terapêuticas. Merecem também relexão: as dificuldades de regularização; as contradições com os ideais da reforma psiquiátrica; ofuncionamento sob o método "capina e reza"; a ausência de convênios e a execução do serviço como práticas caritativas. Quanto à internação compulsória, como decidir se deseja ou não uma internação? Para onde ele irá depois? Para a biqueira? Que trabalho será feito para reinseri-lo na sociedade? No combate ao uso indevido de álcool e outras drogas uma ação integrada é imprescindível.
Precisamos ficar atentos com nossos filhos e filhas, oferecer um novo projeto de vida, porque a relação com a droga tem a ver com o lugar onde eles vivem, com o espaço social, a sua condição na família, exigindo serviços de saúde diferentes para necessidades diferentes. O uso da droga aliado ao vício gera outro problema na sociedade: a prostituição. O uso do crack tem levado muitos adolescentes a “abrirem as portas” para a Aids novamente. É necessário trabalhar a família, pois, uma boa base familiar evita muitos problemas relacionados ao consumo do crack.
O dependente químico só raramente é adicto a uma única droga. O coquetel inclui o cigarro e o álcool, que fazem parte de sua trajetória rumo à falência da saúde, à dissipação da atenção, ao aniquilamento da vontade e à impossibilidade de exercer atividade produtiva em que se constitui o estado avançado de dependência. De uns anos para cá, entre as camadas socialmente desfavorecidas, principalmente, mas não só entre elas, o crack passou a reinar.
Reginaldo de Souza Silva, doutor em educação brasileira, é professor e coordenador do Núcleo de Estudos da Criança e do Adolescente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. - [email protected]