Curtindo o Ano-Novo 

As balsas já começaram a ser montadas, os shows erguem os palanques, os corações e sobretudo as gargantas e estômagos se preparam.  Nem bem acabou o Natal, o Ano-Novo já se anuncia pelos preparativos, o clima que paira no ar, a sintonia das pessoas que substituíram Papai Noel pelos fogos de artifício que rasgarão os céus durante vários minutos com a chegada de 2012.          

E já na manhã do dia 1º de janeiro o comércio começará a encher as vitrines com produtos de Carnaval, pois os blocos e festas pré-carnavalescas começarão a acontecer antes dos três dias de Momo.   E na Quarta-Feira de Cinzas ovos de chocolate brilharão sedutores, convidando ao consumo e ao sabor. E, assim, sucessivamente chegarão o Dia das Mães, o Dia dos Namorados, o Dia dos Pais, o Dia da Criança e todas as datas que o comércio festeja e das quais vive até que...de novo será Natal, e nem percebemos.         

Enquanto na Antiguidade o tempo era marcado pela semeadura e a colheita, e na Idade Média pelas festas religiosas, em nossa sociedade pós-moderna o tempo é marcado pelas datas estelares do consumo.  E como é importante não deixar cair o ritmo, já que o consumo não pode perder a velocidade sob pena de perder o poder de sedução sobre as pessoas, a rapidez  e a efemeridade são uma marca registrada de nosso modo de contar o tempo.          

Vivemos apressadamente, pulando de uma etapa para outra, de uma festa para outra, de uma comemoração para outra.  Não se celebra mais, comemora-se.  Não se fazem mais ritos de passagem, mas sim saltos de mudança atropelados e sem preparação.  Não se vive mais em profundidade, se é carregado pela vida, que não deixa tempo sobretudo para se pensar e refletir.  Há que viver em ritmo de frenesi, de pressa, de sucessão vertiginosa, de emoções provocadas e rasas.         

A fisionomia da pessoas durante o tempo que precede o Natal se transforma; estão ansiosas, apressadas, cansadas, esgotadas.  Reclamam da centena de compromissos, dos milhares de almoços de “confraternização”, dos “amigos ocultos” em profusão, dos festejos vazios e sem finalidade.  Nada cala fundo, nada convida a uma reflexão, nada marca um momento e faz suavemente a passagem para o outro.         

Em 2012 a coisa promete repetir-se. Já há contagem de quantos feriados ponte haverá, em que época cairá o Carnaval e como será possível emendar os dias para torná-lo mais longo.  Assim como a Semana Santa, que santa para muitos deixou de ser há longo tempo, tornando-se apenas um feriado a mais, quando se bebe, se come, se dorme em demasia para depois cair na mesma rotina sem transformação interior, sem conversão, sem passagem pascal da morte para a vida verdadeira.          

E, no entanto, depende de nós.  Depende de nós andar na contramão dessa corrente que nos arrasta inexoravelmente.  Depende de nós fazer com que o Ano-Novo seja diferente.  Depende de nós viver intensa e profundamente cada momento, não como um foguete que passa, do qual só vemos a cauda, mas deixando-nos moldar e configurar por ele.  Depende de nós sermos senhores e não escravos do tempo que o calendário comercial nos determina.  Depende de nós fazermos a pauta do ano que começará em poucos dias.           

Neste Novo-Ano, vivamos a vida e não deixemos que a vida nos viva.  Amemos as pessoas sem data marcada.  Não só no dia fixado para homenageá-la.  Beijemos nossas mães todos os dias e não apenas no segundo domingo de maio.  Festejemos nossas crianças a todo minuto e a todo momento, e não apenas no dia 12 de outubro. Vivamos o Carnaval com alegria, sim, que a alegria e a festa são coisas boas e humanizadoras.  Mas vivamos também a Quaresma que nos prepara para a grande luz da Páscoa, que nos diz que fomos feitos para a vida e não para a morte.           

Demo-nos tempo, pois o tempo nos foi dado.  Ao criar o mundo e criar-nos, o Criador nos fez históricos e cronológicos.  Se não vivemos nossa condição de seres históricos, se não  refletimos sobre cada acontecimento, não poderemos aprender as lições da história e crescer com erros e acertos.  Se tudo passa muito rápido por nós, como água pelo espelho, sem interiorização nem absorção, corremos o risco de passar correndo pela vida e sermos surpreendidos pela morte, que só nos mostrará no espelho da verdade o imenso vazio do não vivido.          

O ano vem novo e cheio de promessas.  É preciso vivê-las e vê-las transformar-se em realizações.  Ou serem adiadas na fé e na esperança.  Curtir cada experiência e dela fazer aprendizado.  Para que o ano continue novo, mesmo avançando em seus 365 dias. Pois na verdade...o que são 365 dias diante da eternidade?  FELIZ ANO NOVO.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'A argila e o espírito - Ensaios sobre ética, mística e poética' (Ed. Garamond), entre outros livros