Etanol: hora de arregaçar as mangas e “ajustar-se” 

Segundo matéria da Companhia Nacional de Abastecimento – Conab (conab.gov.br), de 08/12, “a produção nacional de cana-de-açúcar a ser moída pela indústria sucroalcooleira na safra 2011/2012 deve chegar a 571,471 milhões de toneladas (mt). O número é 8,4% menor que a safra anterior, que foi de 623,905 mt. Do total de cana a ser esmagada, 50,7% (287,564 mt) são destinados à produção de 22,857 bilhões de litros de etanol (bl). Deste volume, 13,788 bl são do tipo hidratado e 9,069 bl, do anidro. Os 49,3% (283,906 mt) restantes vão para a produção de 36,882 mt de açúcar, inferior em 3,37% à safra passada, quando foram produzidas 38,168 mt”.

Considerando a área plantada de 8,369 milhões de hectares, concluímos que a produtividade média será de 68,29 toneladas por hectare, um rendimento baixíssimo para os padrões atuais.

No entanto, o mais chamativo foi o baixo percentual direcionado para a produção de etanol, mostrando de forma inconteste que a safra 2011/2012 foi praticamente “fifty-fifty” alcooleira e açucareira, ao contrário dos anos anteriores, quando quase 60% da produção de cana-de-açúcar eram destinados para a produção de etanol. Aí está uma das explicações para a baixa oferta de etanol (menos 17,2%), enquanto a produção de açúcar diminuiu somente 3,37%.

Sabemos muito bem que o péssimo resultado da safra 2011/2012 tem, também, outras origens que independem de fatores climáticos, tais como: 1) mais usinas greenfields; 2) modernização das instalações existentes (troca das velhas caldeiras por outras mais eficientes, de alta pressão e alta temperatura); 3) expansão e renovação das plantações; e 4) grandes investimentos no etanol de segunda geração (etanol celulósico).

Soma-se a todos estes fatores o inadmissível mutismo e inação do Ministério de Minas e Energia que, em tempo algum, cobrou dos fabricantes de automóveis uma melhor eficiência dos motores dos veículos que utilizam o etanol como combustível, que, 40 anos após o Pró-álcool, continuam consumindo 30% mais do que aqueles movidos a gasolina.

Em vários artigos que escrevi neste Jornal do Brasil sobre o etanol, esse fenomenal e avançado produto que revolucionou não só o setor energético como também o alcoolquímico (vide o bio-Meg e PlantBottle da Coca-Cola ®, o plástico verde da Braskem ® e outros novos produtos que estão chegando), sempre chamei a atenção para o fato de que, como em outros setores, o sucroalcooleiro teria, a médio prazo, uma concentração de grandes players nacionais e estrangeiros.

Essa concentração já aconteceu em vários setores, e o sucroalcooleiro não ficará fora dela; é uma questão de tempo, pois esse processo faz parte da globalização que exige, cada vez mais, quantidade e preços baixos, ou seja, escala de produção aliada à qualidade.

Vejamos alguns exemplos. A Petrobras já entrou no setor, a Cosan associou-se com a Shell, acrescentemos as multinacionais Tereos, Dreyfus, Bunge, Noble (Hong-Kong), Total e BP.

Soma-se a esses grupos a ETH Bioenergia (associada à japonesa Sojitz), do Grupo Odebrecht, que, desde a sua fundação em 2007, tem como objetivo ser líder no mercado, fato esse que seguramente será alcançado, visto que no comando da ETH está o líder José Carlos Grubisich, que, após passar sete anos como presidente da Braskem, colocou a empresa entre as maiores petroquímicas do mundo.

A ETH (www.eth.com) está investindo R$ 8 bilhões na construção e expansão das nove unidades produtivas (SP, MS, MT e GO) que, em 2012, terão capacidade instalada de moagem de 40 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por safra, produzirão 3 bilhões de litros de etanol (equivalentes a 51.698 barris de petróleo por dia) e 2,7 milhões MWh de energia por ano, sendo que desse total 20% serão utilizados nas instalações e 80%, comercializados. Essa energia será suficiente para abastecer 1,125 milhão de residências, considerando um consumo médio de 160 KWh/mês.

Senhores, sigamos as palavras do teólogo inglês William George Ward (1812-1882): “O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude, e o realista ajusta as velas”. A ETH “ajustou as velas” e dá um grande exemplo de que, apesar da crise mundial, é possível fazer com que a bioenergia, limpa e renovável, seja uma alternativa de sustentabilidade.

*  Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento.