Não é isso?

        Menino ainda, Schopenhauer aprendeu a pôr os pés firmemente em um mundo que, para ele, não possuía nenhum “propósito elevado”, que não parecia apresentar em sentido algum uma “finalidade última”. Precipitado na experiência da própria vitalidade (que lhe parecia estranha), o irrequieto pensador descobre o mundo totalmente independente da forma como nós o concebemos e apresentamos para nós mesmos. O mundo é o universo da vontade, e ele demonstrou quão grande é a impotência da razão frente a frente com a vontade.

        Schopenhauer sonhou que talvez fosse possível que a razão, ao menos por um instante, conseguisse se desprender da vontade; devaneou que isso aconteceria através da música. Para ele, a reflexão sobre a música toca o núcleo do segredo do mundo, porque ela é, de maneira imediata, aquilo de que o próprio mundo é a representação.

        O genial pensador esforçou-se para pensar a totalidade do mundo e da vida humana, sem esperar qualquer tipo de salvação proveniente dessa totalidade. Ansiando pela negação da vontade, ele seguiu inteligentemente os passos de sua própria tragédia, que consistiu em viver de acordo com as suas próprias inspirações e intuições.

        Schopenhauer especializou-se na prudência de sempre escolher o mal menor. Todas as evidências e energias lhe determinavam claramente que inspirações e intuições são coisas vivas que passam através de nós. São acontecimentos anônimos que não podem ser transformados em propriedades individuais.

        É voz corrente que o pensamento se deve converter em ação, que devemos ser consequentes e viver de acordo com as verdades que reconhecemos como tais. No final, somente nos atreveremos a pensar o que se acredita poder realizar através da vida; ou opostamente, depois de termos pensado em qualquer coisa teremos de vivenciá-la a qualquer preço.

        Para Schopenhauer, no entanto, há verdades destinadas a serem vividas e outras que não o são. Devemos nos prender a ambas, mas isso somente pode ser realizado se renunciarmos à perigosa ilusão de que são intercambiáveis entre si — não é isso o relativismo?

        Observar o espetáculo do mundo desde os bastidores, como fez Schopenhauer, que ao mesmo tempo nos separam tanto do palco como da plateia e nos permitem ver como “pode ser exatamente assim sem ainda ser”, é crucial hoje.

Tarcisio Padilha Junior é engenheiro