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Paradoxo

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        O esporte exalta as comunidades nacionais, assim como cria entre as nações um terreno comum que repousa não apenas na construção humana mas também na natureza. A celebração dos esportes, num mundo privado de referências, expõe o determinismo da natureza, do qual suportamos as consequências, sem poder modificá-las. O respeito escrupuloso às regras do jogo, a imposição de sanções a qualquer tratamento que modifique o estado natural do atleta mostram nossa vontade de fazer aparecer, por diferença, a verdade incontestável do campeão. O paradoxo da competição esportiva, buscando eliminar qualquer diferença que não seja natural (o doping), acentuando as diferenças pela competição, só é aceitável porque se aplica a um jogo.

        Tal jogo, aplicado a outros domínios da vida em sociedade, mal coexiste com a exaltação das diferenças naturais. À medida que avançamos no conhecimento dos mecanismos sociais e nos tornamos capazes de identificar – e portanto de corrigir – o que decorre do ambiente social e o que decorre do talento pessoal torna-se mais pertinente à questão das desigualdades nas comunidades humanas.

        Será que o espírito de competição pode passar a ser o valor supremo em um mundo sem valores comuns?

        A sociedade afluente – aquela na qual a competição só reconhece as desigualdades naturais, excluindo qualquer desigualdade social ou política – obriga os homens a se curvarem a uma ordem que, ao considerar a desigualdade como o cerne da organização social, a destrói como comunidade humana. Acreditando haver descoberto o terreno comum que faz de nós semelhantes, conferimos à desigualdade uma legitimidade que ela jamais teve, pois fixamos o edifício social às determinações da natureza.

        Fazer do êxito social o valo supremo, em um mundo governado por lógicas funcionais, é, de fato, explicar o fracasso não mais pela falta de sorte, nem mesmo pela injustiça, mas pela desigualdade de talentos. Constatar desse modo a desigualdade humana é sonhar como uma sociedade humana tal qual um formigueiro, em que cada um acha seu lugar exato, e em que a seleção, feita através da competição, desempenha para os homens o mesmo papel que a seleção genética para as formigas.

        Uma sociedade só pode ser livre se não for natural. Ao pretender retirar da desigualdade qualquer aspecto contingente, tal seleção estaria suprimindo a própria possibilidade de liberdade humana, uma construção política.

Tarcisio Padilha Junior é engenherio