O mundo vai mal, em todos os continentes, sem que os seus dirigentes sequer se importem com as graves ameaças que espreitam o nosso planeta. Para qualquer lado que nos voltemos, o desespero marca-nos, sem remédio. Por mais otimistas que sejamos ou queiramos ser. E eu sou um deles. Mas a realidade é o que é. Não há como fugir-lhe.
Estamos no início de uma nova era histórica e geopolítica? Talvez. Mas em que sentido e com que estratégia? Fala-se em reformas, mas é preciso saber quais. Porque frequentemente não passam de contrarreformas...
O Ocidente está a perder muita da sua antiga influência. Os Estados emergentes aí estão para o confirmar. A globalização econômica desregulada e as novas tecnologias de informação — sem princípios nem valores éticos — estão a arrastar parte do Ocidente para a decadência. Ao contrário do que pretendia Clinton. Os Estados Unidos, primeiro, e agora a União Europeia, especialmente da zona euro. Mas não só. Pondere-se a situação tão difícil do Reino Unido. Com uma diferença sensível: a administração Obama, nos Estados Unidos, embora atacada ferozmente pelos republicanos, ignorantes e fanáticos, conseguiu reduzir o flagelo do desemprego (para 8%, bastante menos, proporcionalmente, do que Portugal) e ainda que por pouco está a dinamizar a economia real, ao contrário da União Europeia, salvo raras excepções, como a Polônia, por exemplo. Porque a Europa, da zona euro, está há dois anos (ou mesmo um pouco mais) sem estratégia e sem líderes, como tem vindo a dizer Jacques Delors, entre outros, como Schmidt ou Kohl: "Está à beira do abismo". De resto, das cimeiras que passam, frustradas, e não foram poucas, cada discurso promessa que faça a dupla Merkozy, dado que os outros responsáveis do Conselho Europeu, de tão silenciosos, parecem não contar, a situação torna-se mais confusa e perigosamente crítica. É óbvio que amarrados às ideologias conservadoras e neo-liberais, que perfilham, não têm coragem para provocar as rupturas que se impõem, acabando com os paraísos fiscais, as economias virtuais, os mercados especulativos, que se impõem aos Estados ditos soberanos, e as negociatas escandalosas das agências de rating, cujos protagonistas e responsáveis têm ficado impunes, pelo menos até agora.
Esta situação não atinge só o euro, a justiça social e os Estados ditos de Direito. Tem estado a corroer os fundamentos das nossas democracias, não só no plano nacional como europeu. Há que reagir rapidamente para não cairmos no abismo — o que representaria um recuo civilizacional imenso — como tantos comentadores econômicos e políticos já profetizam...
A semana em que este breve apontamento sai na Visão vai ser decisiva. Não só porque Bruxelas vai albergar vários encontros de ministros e economistas, mas sobretudo pela cimeira do Conselho Europeu, que terá lugar em 9 de dezembro e que foi precedida pelo discurso de Toulon do presidente Sarkozy e pela resposta que lhe foi dada no discurso pronunciado no Bundestag, aliás muito criticado pelo líder parlamentar do SPD, antigo vice-chanceler do anterior governo Merkel, e agora aliado dos Verdes no que se refere à defesa do projeto europeu...
Veremos o que se passará na cimeira da zona euro, como escreve, com tanta lucidez, a atenta jornalista Teresa de Sousa no notável artigo que publicou no Público de domingo, intitulado com precisão: Duas visões à procura de um compromisso. É desse compromisso que os europeístas conscientes estão, ansiosamente, à espera, de modo a encaminhar a Europa da zona euro para um novo ciclo de desenvolvimento, que faça andar para diante o projeto europeu, lute contra o desemprego e não ponha em causa as conquistas sociais, que trouxeram à Europa, destruída pela guerra, 50 anos de paz e de bem-estar, tornando-se a grande referência do mundo.
Frei Bento Domingues, que tanto admiro, escreve no mesmoPúblico, um artigo que merece muito ser lido, não só pelos crentes mas também pelos não crentes, intitulado Idolatria do dinheiro e espírito cristão. E com este subtítulo: O sonho dos fundadores da União Europeia não era a constituição de um império, nem de uma relação de dominadores e dominados. Palavras sábias que os economistas, muitos que se dizem católicos, deviam ponderar...
Mário Soares é ex-presidente de Portugal