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O segredo de Lupi

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        Reza a lenda que, ao examinar os relatórios póstumos do departamento de Achados e Perdidos do Purgatório, por intermédio de um médium psicógrafo, leia-se uma mãe de santo do subúrbio carioca de Coelho da Rocha, em pesquisa para a sua tese de doutorado cuja temática se pautava em políticas sobrenaturais, adjacências místicas e afins, o filósofo Guatemozin deparou-se com um manuscrito do ex-governador Leonel Brizola que, abismado com um obscuro episódio envolvendo o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, solicitava em caráter de urgência autorização para baixar o inquieto espírito no Rio de Janeiro. 

        No documento brizolista, o impávido pesquisador de origem paulista constatou que se tratava de uma reivindicação referente a um possível retorno ao mundo dos vivos, para apagar o incêndio causado pelo presidente licenciado do Partido Democrático Trabalhista, que dissera não deixar o cargo “nem à bala”. Pois foi então que Brizola, decidido, pediu a dona Neusa que desenterrasse do fundo do baú a bombacha e a enferrujada garrucha já velha conhecida do povo brasileiro; e, após permissão de São Pedro, aportou no Aeroporto Antonio Carlos Jobim/Galeão.

        Ao chegar a Copacabana, o velho Briza estranhou que as autoridades homenageassem Drummond e Caymmi e não ele, o incansável estadista dos pampas fluminenses. Todavia, seguiu adiante procurando esquecer-se da ancestral ingratidão humana, porque também o momento exigia decisão de liderança política sem postergação ou ressentimento. De imediato convocou Carlos Lupi, Miro Teixeira, Jorge Roberto Silveira, Cidinha Campos e mais meia dúzia de gatos pingados que, heroicamente, ainda integravam o combalido partido político fundado por ele à luz do ideário getulista.

        Para evitar interferência da Comissão de Ética, reuniram-se mesmo no Amarelinho da Cinelândia para traçar o destino do ministério que, em hipótese alguma, poderia escapar qual água da fonte pelos dedos das hábeis mãos trabalhistas das raposas do partido. Após o bife à milanesa e o café, deliberou-se que, na impossibilidade de o emérito fundador do PDT substituir o ministro Lupi, Miro Teixeira ou Roberto Silveira deveria assumir a função junto ao governo federal, pois que não haveria ninguém mais habilitado para tocar a malsã empreitada política. O problema é que o primeiro alegou insuportável desgaste com o Partido dos Trabalhadores desde sua experiência anterior na gestão do Sapo Barbudo. Por sua vez, Cidinha Campos disse estar mais empolgada com um novo programa de rádio que iria ao ar em breve e o prefeito de Niterói declinou do convite por encontrar-se “politicamente desgastado pela catástrofe natural de um certo Morro do Bumba”. 

        Por falta de opção no banco de reservas, resolveram que a partir daquela data não haveria alternativa senão lutar com unhas e dentes pela manutenção do atual ministro ao menos até a reforma anunciada para janeiro de 2012. Neste ínterim, ganhar-se-ia tempo até que o menino-diabo Brizola Neto trocasse as calças curtas pelo terno e a gravata. 

        Ocorre que se quisessem garantir o emprego de Lupi necessitariam de um trunfo mais consistente do que as bravatas e a declaração de amor até então proferidas em cadeia nacional. Em verdade, precisavam de uma ameaça voraz, que estremecesse as bases estruturais do Planalto e que, sobretudo, pudesse a qualquer hora ser oferecida à revista Veja para bombástica publicação de capa. Calaram-se, cúmplices, por alguns fatídicos instantes de aflição e desengano. Algo que de fato desestruturasse a confiança de Lula em sua dama de ferro tupiniquim, um grampo telefônico, uma gravação de voz e imagem feita por celular, email, telegrama, carta, bilhete, enfim...    

        Foi então que o ministro Carlos Lupi, silenciosamente, retirou do bolso do paletó a surrada fotografia da presidenta Dilma Rousseff numa conhecida taberna do Bixiga, com a camisa do Palmeiras ao lado de um jovial Fernando Henrique Cardoso. Diz que no verso do retrato se lia um legítimo Adoniran Barbosa: “Saudosa maloca / Maloca querida / Dim dim dondi nos passemo / Dias feliz de nossas vidas”. Assinado: Luís Felipe Scollari.            

Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’