Para além da ideologia ecológica

             Vem de se realizar, em Postdam, conferência sobre a dimensão ecológica das novas exigências da modernidade, diante da consciência emergente da preservação da natureza. O campo de provas concentrou-se, necessariamente, nas múltiplas pesquisas na Amazônia, sob nítida liderança alemã.

            Qual o sentido, por exemplo, da intocabilidade das reservas indígenas numa mitologia da conservação ambiental, diante do bem-estar dos próprios silvícolas? Qual o nível real de informação, sobre os limites de ocupação da terra perante o denuncismo ecológico? Há que avaliar o avanço histórico entre o preservacionismo e os imperativos da mudança para a qualidade de vida das populações locais, atingidos por uma estrutura disfuncional de produção, como o do regime colonial, até os meados do século passado.

            Com efeito, no progresso internacional desta problemática, começa a generalizar-se a prioridade do desenvolvimento sobre as do conservadorismo ou, sobretudo, da sua derivação ideológica, contra o imperativo uma sociedade mais justa que prima sobre toda reivindicação preservacionista. Ou seja, a sustentabilidade do desenvolvimento é a exigência primeira de países como o nosso, e implica uma verdadeira e urgente ética da mudança. Vai a uma política global na convergência entre o aumento do PNB, da mobilidade coletiva e da consciência para realizá-lo. Mais ainda, como no caso brasileiro, agrega-se, de pronto, a redistribuição da renda em resultado, que não é o da visão tradicional da prosperidade.

            Falta-nos, ainda, na reflexão do novo século, o balanço global – como insistem as Nações Unidas – entre os custos da mudança, o da sua aceleração e dos ganhos imediatos de um bem-estar. Deparamos, por exemplo, na urbanização amazônica, o atraso pelo vai e vem da construção da hidrelétrica de Belo Monte, na Amazônia, ou das discussões sobre a queda de vazão do São Francisco, frente à irrigação do Nordeste. Ou pior, como hoje reconhece o governo federal, mantém-se a precariedade das informações conservacionistas, quanto às exigências reais das reservas indígenas. As conclusões da Conferência de Postdam refletem o despertar para a distinção entre o preservacionismo nas sociedades maduras do Ocidente, e o quadro do antigo Terceiro Mundo, a reclamar a saída de situações de absoluta marginalidade coletiva, como permitiu o Brasil da última década. E é desta nova consciência, inclusive, que o país emergente assumiu a opção pelo desenvolvimento nas irreversibilidades nas suas escolhas políticas. E tal, como já nos lembrou, de maneira definitiva, Santiago Dantas, num país em que “o povo como povo é melhor do que a elite como elite”.

Candido Mendes, do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, é membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão Brasileira de Justiça e Paz