O Carnaval de Zé Keti

         Após assistir ao sublime Zé Renato declamar a magistral obra poética composta por ti, em boa companhia do promissor violonista e intérprete Alfredo Del Penho, na Academia Brasileira de Letras, peço permissão aos deuses do Carnaval para iniciar a crônica com os célebres versos de uma marcha-rancho de 1967, intitulada Máscara negra, antológica parceira com Pereira Matos: “Tanto riso, oh quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando pelo amor da Colombina / No meio da multidão”.

Tal introito folião se fez necessário, vez que, por intermédio deste manuscrito em comemoração ao teu aniversário, disponho-me a pôr em registro sinceras saudações ao mestre portelense que, se por estas paragens ainda estivesse entre nós, com seu talento e maestria, completaria joviais noventa primaveras neste ano de 2011. Refiro-me a ti, meu nobre José Flores de Jesus, trovador dos folguedos de Oswaldo Cruz e Madureira: “Foi bom te ver outra vez / Está fazendo um ano / Foi num Carnaval que passou / Eu sou aquele Pierrô / Que te abraçou e te beijou, meu amor”.

Consta nos anais da posteridade sambista que tu, ó saudoso Zé Keti, eras filho de um marinheiro de origem sergipana; e, sobretudo, conforme dizem os inesquecíveis versos da tua já afamada certidão de nascimento em verso “natural (dos subúrbios) do Rio de Janeiro”. Emtua infância que passaste na Zona Oeste do município, em casa do avô flautista João Dionísio Santana, dizem que menino quieto – daí originar-se-ia a corruptela Keti –, com atenção de criança tímida testemunhara as rodas de choro e seresta, regidas por Alfredo da Rocha Viana Filho, ninguém menos que o menestrel dos sopros de nomeada Pixinguinha.

Em 1955, para honra e júbilo do suburbano séquito de mestres e aprendizes, duas célebres composições de tua autoria A voz do morro (Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo sim senhor / Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei do terreiro.) eLeviana (Azar é seu / Em vir me procurar / Me abandona, me deixa / (...) Vai tratar de sua vida / Leviana.) fizeram parte da trilha sonora do filmeRio, 40 graus, escrito e dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Em 1960, ó Zé Quieto pros íntimos de samba e boemia, tu assumirias com engenhosa harmonia a coordenação musical do bar Zicartola. Na casa de bambas de propriedade do poeta mangueirense e de sua companheira, fagueiro labutavas conforme uma espécie de mestre de cerimônias dos antigos compositores Ismael Silva e Nelson Cavaquinho, escoltado por um hábil vascaíno como tu, reconhecido pela singela alcunha de Paulinho da Viola: “Na mesma máscara negra  / Que esconde o teu rosto / Eu quero matar a saudade".

Logo depois tu embarcarias na idealização do conjunto musical A Voz do Morro, com ilustre participação de Nelson Sargento, Elton Medeiros e Jair do Cavaquinho. Na década de 60, em clara oposição ao golpe militar, ó patusco sambista, participaste com Nara Leão e João do Vale do memorável show Opinião, produzido pelo Teatro de Arena, com direção de Augusto Boal e roteiro assinado por Paulo Pontes e Oduvaldo Viana FilhoÉ preciso dizer que te apresentavas ao engajado público com inesquecíveis sucessos de tua inspirada lavra, tais como Acender as velas (“Acender as velas / Já é profissão / Quando não tem samba / Tem desilusão.” e Diz que fui por aí (Se alguém perguntar por mim / Diz que fui por aí / Levando um violão debaixo do braço / Em qualquer esquina eu paro / Em qualquer  botequim eu entro / Se houver motivo  / É mais um samba que eu faço). 

Em teu folguedo de noventa anos, digo-te que se a tal Dina vier indagar-me se andas em vadiagem pelo Morro do Pinto ou São Carlos... juro-te que, se uma cabrocha ou pastora de Mangueira quiser saber de ti, decerto hei de dizer-lhe que não sei por onde pousas e que saiu por aí...  Ou então que andas dando duro no baralho pra sobreviver, porque não saberia explicar que mais um malandro fechou o paletó... Se alguém perguntar por ti, lhe direi apenas quem és e o que representas para o cancioneiro popular desta sincrética nação afeita à batucada de um tambor de macumba em palma de mão de um jongo partideiro...

Afinal, se alguém vier perguntar por ti, direi que és o Zé Keti da Portela, um homem de opinião, responsável pelos imortais versos de espírito libertário jamais descritos por outro sambista na ingênua euforia dos bailes e salões fluminenses: “Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é Carnaval”.

Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’.wanderlourenco