Grande Santiago Dantas

        Foi anunciada, finalmente, uma biografia de um dos brasileiros mais notáveis do século passado, e que tinha a unânime admiração de sua geração. O trabalho é do advogado Pedro Dutra, carioca radicado em São Paulo e já autor de trabalhos sobre o saudoso jurista. Trata-se de Francisco Clementino Santiago Dantas, advogado e político, nascido no estado do Rio, com carreira e amizades na sua terra natal  e eleito deputado federal pelo PTB de Minas Gerais – por solicitação pessoal do então vice-presidente João Goulart. Foi rara influência positiva nos anos Goulart.

        A biografia que coroa os estudos do autor sobre o biografado, que certamente não conheceu pessoalmente, pela idade, mostrará naturalmente uma geração que teve uma elite que pouco pôde influir na vida brasileira. Mas que se constituía num grupo de homens vitoriosos, de visão e grande categoria. Lembro bem dos amigos mais chegados, e alguns discípulos mais jovens, como Antonio Galotti, Miguel Lins, Roberto Campos, Marcilio Marques Moreira, José Hugo Castelo Branco, Augusto Frederico Schmidt, Walter Moreira Sales, Gonzaga Nascimento Silva  e Alceu Amoroso Lima.

        Será uma boa oportunidade para que os mais jovens e os menos informados conheçam o papel e o poder do Integralismo de Plínio Salgado na intelectualidade brasileira dos anos 30, quando o mundo cristão e capitalista se sentia, muito justamente, ameaçado pela Revolução Russa, que pouco mais de cem anos depois repetia toda a barbaridade da Francesa, com o agravante de ter aspirações a ser modelo mundial. Foi assim que, com o auxílio do Vaticano, a Europa pendeu para a direita, com Itália, Portugal, Espanha, depois parte da França. E com reflexos no Brasil, com o Estado Novo de Getulio Vargas.

        O Integralismo, hoje, é uma página virada da história. O mundo é outro, a economia é outra. Mas voltando no tempo... Mais do que se justifica a presença em seus quadros, para ficarmos só no caso brasileiro, de figuras da inteligência de Santiago Dantas, Alceu Amoroso Lima, padre Hélder Câmara, Gerardo Melo Mourão, Alberto Cotrim Neto, Menottii Del Picchia, Gustavo Barroso, Miguel Reale, Antonio Galoti, Alfredo Buzaid, Candido Mota, tantos e tantos outros brasileiros admiráveis.                                                             

        Plínio Salgado era, ele mesmo, uma presença na vida intelectual, com obras respeitadas, que, depois do exílio em Portugal, com a redemocratização, voltou ao Brasil e exerceu mandatos no Congresso até 1971. E disputou a Presidência da República, com votação significativa, em 1955.

        Importante numa biografia como a de Santiago é também mostrar como as elites eram presentes na vida política do Brasil, não se omitindo como hoje na luta pelas liberdades  democráticas, contra o totalitarismo, o populismo e o sindicalismo. É preciso lembrar que a direita, quando limitou garantias constitucionais – em 37 e 64 –, nunca impediu o direito de ir e vir do cidadão. E garantiu a propriedade, a livre empresa, usou muito pouco da censura a livros e à imprensa, mantendo as melhores relações com a comunidade internacional identificada com os valores ocidentais.

        A leitura da vida brasileira daquela época é que vai se encontrar, décadas depois, influindo e se impondo pelo talento e dignidade. Em posições as mais diferentes, mas egressos dos quadros da Ação Integralista Brasileira.

        Nada mais totalitário, ordinário e injusto do que se tentar esconder a história, o passado das pessoas, como se faz neste Brasil que relembra a cada momento a passeata de 68, com cem mil participantes, sem uma referência ao milhão que foram às ruas em março de 64, em São Paulo e no Rio, para pedir e aplaudir o movimento militar. Quanta hipocrisia!

Aristóteles Drummond é jornalista - [email protected]