A avalanche dos acontecimentos de dimensão exponencial está levando as pessoas a esquecerem fatos altamente relevantes, que aconteceram além dos últimos cinco anos. Nos idos de 1970 foi publicado um relatório do chamado Clube de Roma, ou mesmo Relatório Meadows. O clube foi uma criação dos mais renomados cientistas, prêmios Nobel, políticos e pessoas de grande destaque no cenário mundial. Seu objetivo era, e é, alertar, ou dar apoio à comunidade internacional em vastos campos relacionados a: política, economia internacional, população, meio ambiente centrado no pensamento do desenvolvimento sustentável.
Os primeiros trabalhos na época era buscar uma equação que levasse a economia a crescer sem degradar o meio ambiente. Este relatório, hoje esquecido nas empoeiradas estantes das universidades, usando modelos matemáticos sofisticados, levantou a questão que o planeta Terra não suportaria o crescimento populacional devido à pressão que haveria sobre os recursos ambientais e energéticos — aumento da poluição, mesmo considerando as condições tecnológicas disponíveis. Neste contexto as taxas de crescimento econômico (PIB) deveriam ser radicalmente zero, o que tecnicamente seria pregar o colapso do modelo capitalista. Tudo isto para conter as taxas de poluição que já escureciam no horizonte. Isto foi como dar um soco no estômago do modelo capitalista vigente.
Em 1987 surgiu outro relatório (Brundtland), agora sob patrocínio das Nações Unidas, defendendo a tese de desenvolvimento econômico sustentável, definido como aquele que “satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Foi entendido que poderia, sim, haver crescimento desde que garantisse o meio ambiente. Foi um alivio. Entretanto, esta brecha deu a oportunidade para que o crescimento levasse a um preço ecológico brutal, com um gigantesco buraco negro ambiental, em que a humanidade hoje se encontra. Deve ser esclarecido que desenvolvimento sustentável sugere qualidade em vez de quantidade, com redução do uso de matérias-primas e produtos, aumento da reutilização e da reciclagem. A expressão “crescer” economicamente sugere aumento da quantidade disponível. Mas como os recursos são finitos haverá um momento crítico. Conforme abalizados cientistas, este momento já chegou.
Segundo Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável da Universidade de Surrey, Inglaterra: “Se a economia continuar a crescer no mesmo ritmo dos últimos anos, será impossível a sustentabilidade das próximas gerações”. Isto significa que deveremos viver um longo período em “fogo brando”. Isso representa reduzir ou eliminar todo o consumo desnecessário para recuperar o desgaste e deixar um planeta melhor do que aquele que recebemos. A questão é se estamos preparados para viver em condições mais modestas do que estamos acostumados. Serão mais e mais sacrifícios. Mas não haverá outro jeito.
O modelo capitalista ocidental está baseado no crescimento perpétuo para se autossustentar. Neste ponto, os economistas se encontram num dilema de crescimento: “Não se pode viver sem ele, mas também não mais se pode viver com ele”. Mas como isto será possível se os recursos naturais são finitos? Então, voltamos às condições do relatório do Clube de Roma a muito esquecido. A grande sacada de economia é reduzir os desperdícios em todos os sentidos, principalmente materiais e energéticos.
Finalizamos com as palavras de Jackson: “Comprar menos, ser mais eficiente no uso da energia, viajar menos de carro próprio, de avião, economizar, fazer investimentos éticos e PROTESTAR”. (Negrito nosso). Será este o significado do crescimento zero daquele relatório?
Sergio Sebold é economista e professor