Marleide pôs a urna forrada com chita debaixo do braço e foi recolher votos num evento eleitoral com dezenas de pessoas numa casa em Brasília. Na frente do Anexo do Ministério da Justiça apareceu uma urna não prevista e contabilizada previamente. Enaile, em viagem a Portugal, vai levar uma urna e os papéis dos votos prontos, para que as/os brasileiras/os residentes na terrinha possam exercer o seu direito de votar. Dentro do campus da UNB (Universidade de Brasília), apareceram pessoas com urna debaixo do braço, chamando alunos e professores para o voto democrático.
Não é miragem, não é invenção ou conto de fadas, mas é o que está acontecendo em todo Brasil nesta semana de 1º a 7 de setembro de 2014, Semana da Pátria. E não são urnas eletrônicas. São urnas de pano, urnas de papelão, devidamente embandeiradas e coloridas, e lacradas, que estão circulando. É o velho voto de papel, o gostinho de colocar a cédula na urna, depois de marcar sua preferência de voto com caneta.
O Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o Sistema Político e o recolhimento de assinaturas do Projeto de Lei Popular para a Reforma Política e Eleições Limpas está acontecendo. Mobilização total, acima do esperado: milhares de comitês populares e de urnas. A grande mídia, por razões facilmente compreensíveis, não está dando nenhuma linha sobre o assunto. É como se nada estivesse acontecendo no Brasil, como se não estivesse em curso uma grande mobilização popular sobre um tema a respeito do qual a grande mídia gosta e costuma falar muito: os desmandos da política, os malfeitos dos políticos, etc. Quando há uma resposta popular, uma mobilização social de massas, silêncio completo. Parece o início das Diretas-Já em 1984. Nenhuma palavra, nenhuma notícia. E o povo estava na rua, fazendo comícios, exigindo mudanças e voto direto para presidente.
As urnas estão rodando. Em Brasília, mais de 100 urnas circulam e outras novas aparecem quase como que do nada cada dia. Em saídas de missas e cultos, nos comitês dos candidatos das eleições de 5 de outubro comprometidos com o povo e a participação popular, nas sedes de sindicatos e associações de bairros, na frente de fábricas e escolas, nas entradas de prédios públicos, nas ruas e praças, o voto é depositado, em resposta à pergunta: Você é a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político? E para assinar a lista a favor de um projeto de lei de iniciativa popular de reforma política e eleições limpas.
Conta Ângela Cristina, de Goiás: “Informe à Coordenação do Plebiscito: a Semana começa bem, MUITO bem. Caros/as amigos/as. A recepção da proposta da Constituinte pela população e a participação no Plebiscito ultrapassou nossas expectativas. Ontem (02/09), terminamos de distribuir todas as 200 mil cédulas que tínhamos impresso. Demais materiais de divulgação também se esgotaram. E mais. Como o Plebiscito é Popular, muita gente deu seus pulos para organizar a votação em locais distantes. Agora, por exemplo, recebemos a informação de que o município de Damianópolis, com menos de 3.500 habitantes, no nordeste goiano, tem cinco pontos de votação! Notícias como esta chegam aqui a todo momento. Agora, a tarefa é transformarmos essa mobilização em votação e conscientização".
Pode-se votar também via internet. É só acessar www.plebiscitoconstituinte.org.br. E votar. E divulgar o voto. E pedir para que mais gente, milhares, milhões também votem.
Reformas só saem assim no Brasil. Quando não saem, como as Reformas de Base dos anos 1960, é porque os setores conservadores, que nunca querem mudança, as impedem via golpe ou outras formas de protelar as mudanças necessárias e urgentes. Estamos, agora, em tempos democráticos. Nada, ninguém pode calar a expressão e o voto popular, a vontade política de exigir uma reforma política de fundo, através de uma Constituinte Exclusiva e Soberana. As redes sociais enfrentam e superam o silêncio de quem não quer e nunca quis dar vez e voz ao povo.
A Semana Nacional de Luta pela Reforma Política democrática, promovida por centenas de movimentos sociais, instituições e organizações da sociedade civil, continua até domingo, dia 7, quando haverá o Grito dos Excluídos, organizado pelas pastorais sociais em todo Brasil. Todas e todos ainda podem votar. Milhões estão votando e ainda votarão. A velha militância de guerra está mostrando seu valor, gastando sola de sapato, gastando dinheiro do seu bolso, por amor à camiseta e à causa. Marleides, Enailes, Anas, Marias, Marcelos, Ângelas Cristinas, Cléos e Léos estão dando exemplo e ajudando a construir um Brasil justo, solidário, participativo, democrático e soberano.
É uma semana para não esquecer.
* Selvino Heck, assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República, é membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.