Cuidando da saúde do planeta

Um tapa na cara. Manchete principal do jornal Zero Hora, segunda, 25 de novembro, dia da abertura do VIII Congresso de Agroecologia, em Porto Alegre: Uso de veneno cresce três vezes mais do que lavoura – Em cinco anos, área plantada aumentou 6%, enquanto venda de agrotóxicos subiu 22%. Gaúchos utilizam quase o dobro da média nacional. Segue a matéria: “O alerta de ambientalistas e entidades ligadas à saúde sobre o risco cada vez maior de químicos na agricultura é sustentado por dados. Segundo estatísticas de safra do IBGE e de comercialização do Sindicato Nacional da Indstria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), nos ltimos cinco anos, a venda de agrotóxicos subiu 22,1%, três vezes acima do crescimento da área cultivada. Se comparado ao avanço  da produtividade, é quatro vezes maior, indicando abuso na aplicação dos produtos”. 

O Brasil é o segundo maior consumidor de agrotóxicos do planeta, um pouco atrás dos EUA. Entre os 50 tipos de agrotóxicos mais utilizados nas lavouras brasileiras, 22 são proibidos na União Europeia. Segundo o observatório da indústria de agrotóxicos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na última década o consumo de defensivos disparou no país. De 2001 a 2010, o faturamento da indústria do setor aumentou 215%, enquanto a área plantada subiu 30%. Para Victor Pelaez Alvarez, coordenador do observatório, “estão usando de forma preventiva. É como fazer quimioterapia para prevenir o câncer”.

São muitas as consequências. Segundo Adeney Freitas Bueno, da Embrapa Soja, o uso descontrolado e intenso vai causar o surgimento de outras pragas. A explosão da helicoverpa – lagarta da soja – é um exemplo”.   Além disso, o excesso e o descontrole no uso de agrotóxicos geram consequências que vão além dos limites do campo e ameaçam a qualidade da água, inclusive a distribuída para a população urbana. Uma frase de Ivar Pavan, secretário de Desenvolvimento Rural do governo do Rio Grande do Sul, é emblemática: “O homem é o único animal do planeta que envenena os alimentos e os oferece aos próprios filhos”.

O governador Tarso Genro, presente na abertura do Congresso de Agroecologia, disse que “é da natureza do capitalismo ser predatório. O desenvolvimento predatório adquire estatuto violento, e sua hegemonia é mais intensa hoje”. A luta pela agroecologia concentra duas dimensões de uma nova utopia, disse o governador: a possibilidade da utopia, que pode ser trazida para o presente com experimentações e práticas. E pode também produzir uma nova visão de sociedade, com uma nova relação com a natureza. Um novo projeto de sociedade, de humanidade, de produção e de economia.

Nada mais adequado, pois, que o XIII Seminário Estadual e XII Seminário Internacional sobre agroecologia, o V Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia e o VIII Congresso Brasileiro de Agroeocologia  CBA 10 anos —, promovido pela Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), tenham como lema Cuidando da sade do planeta. Nas palavras do presidente da ABA, Paulo Petersen, na abertura do Congresso, “é preciso despertar antes que seja tarde demais. Há uma crise sistêmica, ecológica e ambiental, e a agricultura está no centro da crise, sendo ao mesmo tempo algoz e vítima. A agricultura está numa encruzilhada, onde não é mais possível fazer pequenos ajustes.  A agroecologia pode ser a matriz de saída da crise. E o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), lançado em outubro, é um esforço coletivo de governo e sociedade e ‘uma conquista nossa’, de movimentos sociais, redes, articulações”.

Nas palavras de saudação ao Congresso, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, falou em esperança crítica. Esperança pelos avanços havidos. Crítica, “porque não nos contentamos com eles”. O Congresso reuniu mais de 4 mil participantes. Muitos jovens, muitos estudantes, agricultores, assentados, professores, militantes sociais, acadêmicos, lideranças de movimentos populares. Milhares de oficinas, mesas-redondas, centenas de práticas apresentadas, tertúlias, feiras, mostras, debates nos corredores, uma efervescência permanente, porque, como disse Paulo Petersen, “não existe agroecologia de cima para baixo”. 

Leonardo Boff falou da ecoteologia da libertação,  ecologia como grito da terra e grito dos pobres. Estamos num momento crítico da história da Terra e da Humanidade. Precisamos fazer uma escolha. Ou cuidar de nós e dos outros, ou arriscar em destruir a humanidade”. E disse aos participantes do Congresso: “Vocês representam uma alternativa”.

Para Leonardo Boff, a agroecologia é um novo começo. “Um novo começo com outro olhar: ver a Terra como nossa Mãe”. Indicou cinco coisas a serem feitas: a ética do cuidado – tudo que vive só sobrevive se for permanentemente cuidado; a responsabilidade coletiva – saber se a minha ação ajuda a vida e não é destrutiva do sistema e da vida;  o princípio da cooperação – é o que a natureza faz, todos colaboram com todos, num equilíbrio dinâmico; a compaixão – com quem sofre, participar de sua alegria, colocar-se no lugar do outro e permitir-se andar com ele; resgatar a razão cordial, a razão sensível – somos seres de sentimento, de paixão. Sua última palavra: “A centralidade é a vida humana. A economia e a política devem estar a serviço do sistema vida. Somos chamados a irradiar como estrelas.

Haveria muito mais a contar, falas e pensamentos de João Pedro Stédile, de Valter Bianchini, Cláudia Schmitt, Maria Emília Pacheco, Adriana Falcão, Jaime Morales, Abdalaziz Moura, de Irene Cardoso, nova presidente eleita da ABA, de tantos e tantas, as emocionantes homenagens a José Antônio Costabeber e Jorge Luiz Vivan, recentemente falecidos.

Mas ficou para mim a alegria, o entusiasmo, a simplicidade da menininha Amanda, de 8 anos, que na bela mística final do Congresso aproximou-se de mim e me mostrou um pacotinho que tinha nas mãos: “Aqui eu tenho sementes de milho e feijão”. "E tu vai plantá-las?", perguntei. Ela: “Sim.” Eu: “Tu vai plantá-las, vai regá-las, vai cuidar das plantinhas que vão nascer e, junto com tua mãe Suzaa. e teu pai Gervásio, tu vai colher os seus frutos.

*Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República, além de secretário executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.