Moradores da Ladeira Saint Roman, na zona Sul, sofrem ameaças de traficantes após ação policial

O Comando da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) abriu, ontem, procedimento interno para apurar denúncias de invasão de policiais militares de casas na Rua Saint Roman, que atravessa os bairros de Copacabana e Ipanema. Moradores enviaram na quarta-feira uma carta à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) das favelas do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, ao 19º Batalhão da Polícia Militar, à 13ª Delegacia Policial e à Ouvidoria do Ministério Público estadual. Nela, denunciam que, “sem mandado de busca, sem tocar a campainha, quase sempre na madrugada, equipes da PM invadiram algumas dessas casas para pularem os muros em operações surpresa. A partir desses episódios, moradores da Rua Saint Roman foram procurados e ameaçados por pessoas possivelmente ligadas a contraventores (traficantes)”. As ações aconteceram entre maio e junho passados. 

Um dos moradores, que não quis se identificar, contou que, no mês passado, agentes da PM fardados avançaram sobre sua casa por volta das 6h30. “Eles entraram na minha residência e também nas duas casas do lado. Nossas casas fazem limite com a comunidade, por intermédio de muros. Os policiais resolveram usá-las, para não percorrem as vias normais. Mas traficantes vieram tomar satisfação conosco, embora, é claro, nós não tenhamos permitido que ninguém ocupasse nossas casas”, afirmou. Segundo outro morador, “bandidos ameaçaram todos os residentes da via”. Mas alguns deles, como assinalado na carta, tiveram suas casas atingidas por pedras e pedaços de concreto.

Embora nas duas últimas semanas não tenha havido tiroteios, desde abril a Rua Saint Roman tem seus moradores e pedestres expostos a balas. As marcas dessas trocas de tiros já podem ser vistas nos prédios em frente à escadaria que dá acesso à comunidade do Cantagalo, que fica na parte de Ipanema. Nesses edifícios, quando há confrontos entre policiais e traficantes, pessoas são obrigadas a sair de suas salas e ficar nos corredores dos imóveis. Alguns apartamentos já tiveram balas atravessando as janelas. 

Outro morador, que também não se identificou, disse que, no mês passado, policiais militares adentraram seu prédio, mas foram questionados por dois condôminos. Eles queriam acessar a cobertura da edificação, para ter uma visão melhor das favelas. “Nós temos duas janelas e o blindex da portaria perfurados”, disse o morador, que contou ainda ter sido abordado na rua por dois homens, que lhe perguntaram por que foi permitida a entrada dos policiais no prédio. “Eu tive de explicar que não foi permitido; eles invadiram”.

“Os policiais invadem nossas casas, vão embora, e nós sofremos as consequências de suas ações. Queremos um policiamento constante e não esse tipo de ação danosa”, disse outro morador. Segundo ele, a frequência desses confrontos aumentou à medida que a crise das UPPs foi se agravando e a segurança pública do estado passou a ser comandada pelo Gabinete de Intervenção Federal.

A UPP do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho foi inaugurada em 2009. Logo no início do governo de Luiz Fernando Pezão, em 2014, a UPP foi se desestruturando. De 2009 a 2014, também aconteceram as obras do Programa de Aceleração de Crescimento, com recursos, sobretudo, do governo federal. À semelhança do que ocorreu com a UPP, o ritmo das obras diminuiu com a crise fiscal do país e do próprio Estado do Rio. Algumas delas sequer foram concluídas. 

Um morador lembrou que, entre 2009 e 2014, a Rua Saint Roman se transformou numa pulsante via de comércio e albergues, já que o binômio segurança e investimento em infraestrutura estavam então caminhando juntos. Houve implantação de redes de esgotamento sanitário e abastecimento, além de drenagem e pavimentação. Um elevador panorâmico dando acesso à Favela do Cantagalo também foi erguido. “Nesse período, abriram hostels não só na rua, como nas três comunidades. Turistas procuram se hospedar na rua ou nas comunidades. Moradores do asfalto passaram a ir mais às favelas. Bares e restaurantes ficavam bem mais cheios do que agora”, cita o morador.