Bravo, apesar das dificuldades: Theatro Municipal comemora 109 anos

Após dois anos de crise — com atrasos no pagamento de salários, paralisações e cancelamentos de espetáculos em decorrência dos problemas financeiros enfrentados pelo Estado do Rio — o Theatro Municipal do Rio de Janeiro completou 109 anos este mês e retomou suas atividades em 2018. Segundo o presidente da instituição, Fernando Bicudo, os salários estão em dia e o pior momento já passou, o que possibilitou a retomada de apresentações com os corpos artísticos da própria instituição. Para ele, o primeiro semestre foi simbólico, com espetáculos marcantes, como a “Ressurreição” e a “Ode à Alegria”.  “E hoje [ontem] nós temos a imensa alegria de apresentar Nelson Freire, um dos cinco maiores pianistas do mundo, que depois de 20 anos vai tocar dois concertos para orquestra no mesmo dia, com a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, regida pelo maestro Marcelo Lehninger”, disse o presidente.

O primeiro semestre foi marcado pelo “Concerto da Ressurreição”, a Segunda Sinfonia de Mahler, executado pela orquestra do teatro com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Houve também uma produção multimídia do “Baile de Máscaras”, de Verdi, e “Joias do Ballet”, além da estreia do novo diretor musical da orquestra, Claudio Cruz, com “Ode à Alegria”, nona sinfonia de Beethoven, e apresentação dos três corpos artísticos. O presidente destaca que as apresentações gratuitas do último dia 14, para celebrar os 109 anos da instituição, atraíram mais de 5,6 mil pessoas. As visitas guiadas e os concertos a preços populares continuam como atrações. “Tivemos vários eventos a R$1 e outros até gratuitos, como o aniversário”, disse. 

Apesar da proibição de fazer concursos para a orquestra, corpo de baile e coro, impostos pelo acordo de recuperação econômica do estado assinado entre os governos do Rio e federal, Bicudo adianta que a programação para o segundo semestre está “brilhante”: “Estamos viabilizando parcerias para continuar com a nossa programação. Em parceria com [os produtores] Cláudio Botelho e Charles Möeller vamos fazer ‘West Side Story’, com a versão original do musical da Broadway, com coreografia do Jerome Robbins e coro e orquestra do theatro. Depois de ‘Joias da Ópera’, vamos repetir o ‘Joias do Ballet’, porque foram três apresentações esgotadas”. 

Para o segundo semestre, serão apresentados também o balé “Copélia”, em agosto com o corpo de baile, e “Lago dos Cisnes”, em dezembro, que foi cancelado no ano passado por causa da crise.

Bilheteria 

Apesar dos salários em dia, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Entidades Públicas da Ação Cultural do Estado do Rio de Janeiro (Sintac) e integrante do coro do theatro, Pedro Olivero, disse que não foi repassada a verba de R$ 53 milhões para fazer a programação e manutenção. “O problema é que este ano o governo não repassou verbas para fazer a programação, então estamos fazendo um plano B porque a programação toda que foi anunciada o dinheiro não saiu”, disse, acrescentando que os tapetes e cortinas precisam ser renovados. Segundo Olivero, sem verba do governo estadual, o teatro tem se mantido com arrecadação da bilheteria, “que não é grande coisa”: “Em novembro ia ter “Porgy and Bess”, a ópera do [compositor americano George] Gershwin e elenco todo negro, mas foi cancelado por falta de verba”. 

Em relação aos repasses, a Secretaria de Estado de Cultura foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou até a publicação da reportagem.

Nesses dois anos de crise econômica no estado, que chegou a decretar estado de calamidade pública, profissionais do Theatro Municipal enfrentaram atrasos nos pagamentos dos salários. Os artistas chegaram a fazer paralisação e suspenderam os ensaios, levando ao adiamento de espetáculos e até ao cancelamento de apresentações em 2016. No ano seguinte, foi criado o movimento SOS Theatro Municipal, e os músicos, cantores e bailarinos fizeram atos artísticos para cobrar os pagamentos e arrecadar alimentos para os funcionários. O primeiro bailarino chegou a trabalhar como motorista para pagar as contas. 

Cartão postal 

Com presença imponente na Cinelândia, no Centro do Rio, o Theatro Municipal é um dos principais do Brasil e da América do Sul. O concurso para o projeto arquitetônico do espaço foi lançado em 1903 pela gestão Pereira Passos na prefeitura, na época da reforma urbana promovida por ele que abriu a Avenida Central, hoje Rio Branco. Foram recebidas sete propostas e duas empataram em primeiro lugar: o projeto Aquilla, atribuído ao engenheiro Francisco de Oliveira Passos, filho do prefeito, e o projeto Isadora, do arquiteto francês Albert Guilbert.

Após a polêmica e suspeita de favorecimento ao filho do prefeito, o projeto final fundiu os dois premiados, ambos inspirados na Ópera de Paris. A obra começou no dia 2 de janeiro de 1905 e durou quatro anos e meio, A decoração foi feita a convite por artistas como Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e os irmãos Bernardelli, além de artesãos europeus que criaram os vitrais e mosaicos. 

Com capacidade para 1.739 espectadores, o Theatro Municipal foi inaugurado pelo presidente Nilo Peçanha e pelo prefeito Sousa Aguiar no dia 14 de julho de 1909. O local passou por quatro grandes reformas. Em 1934, foi ampliada a capacidade da sala para 2.205 lugares; em 1975, foram obras de restauração e modernização, além da criação da Central Técnica de Produção. Em 1996, iniciou-se a construção do edifício anexo com salas de ensaios. E a reforma iniciada em 2008 e concluída em 2010 restaurou e modernizou instalações. O teatro conta hoje com 2.252 lugares. (Agência Brasil)