Obra paralisada do novo MIS, na Avenida Atlântica, não tem prazo para recomeçar

Com obras paradas desde fevereiro de 2016, a nova sede do Museu da Imagem e do Som (MIS), com potencial para se transformar na maior atração da icônica Avenida Atlântica, na Zona Sul, aguarda a aprovação do aditivo de contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para garantir a publicação da licitação que permitirá o reinício das obras. Enquanto isso, vizinhos se queixam de uma inédita proliferação de mosquitos pelos arredores, provável efeito da água parada dentro da área abandonada. Pelo menos dois restaurantes que abriram na Rua Aires Saldanha, justamente para usufruir do movimento que o novo museu passaria a atrair, já fecharam as portas. Causa espanto a ocupação pelas obras — agora paralisadas — da maior parte da calçada do lado ímpar da Aires Saldanha, nos fundos do museu. 

Dos 274 milhões que custariam todo o museu, já foram consumidos R$ 228 milhões (valores de julho de 2016), e ainda faltam R$ 45 milhões do BID, contingenciados no Ministério da Cultura para a obra, retidos até hoje, porém, por conta da crise financeira enfrentada pelo estado, que está em regime de recuperação fiscal e não pode contrair financiamentos. A Fundação Roberto Marinho já investiu R$ 113 milhões; o estado, outros R$ 75.707 milhões; e o BID, R$ 40 milhões. Os valores garantiram a conclusão de 70% do projeto, correspondentes à primeira etapa, terminada em 2010 (desapropriação do terreno e demolição sustentável do imóvel), e à segunda (fundações, que oneraram os custos em função do solo arenoso e densa ocupação), encerrada em 2014. Falta a terceira etapa, referente às esquadrias, acabamentos e instalações, que ainda dependem da liberação da cota do BID e de uma nova licitação. Assinado pelo escritório americano Diller Scofidio + Renfro, que venceu um concurso público em 2009, o projeto, mesmo inacabado, chama a atenção pela ousadia de seus traços angulosos. 

A inspiração foram as pedras portuguesas do calçadão da Praia de Copacabana, reproduções das ondas do mar desenhadas pelo paisagista Burle Marx. A ideia era inaugurar o imóvel em dezembro de 2014. Descumprindo o prazo criou-se outro: apresentar a atração aos turistas nas Olimpíadas, o que também não ocorreu. E a nova licitação não tem prazo para acontecer. Pelas estimativas da Fundação Roberto Marinho, haverá mais um ano de obras após a emissão da ordem de reinício pelo estado. Depois, mais quatro meses para as instalações da museografia e outros dois meses para os testes finais.

Prejudicados 

Além da população e dos turistas, que ainda não podem usufruir do ambicioso projeto, comerciantes das redondezas também sofrem. O goiano Joabe Coelho, 34 anos, foi um que chegou ao Rio há um ano e quatro meses para abrir uma loja de açaí na esquina das ruas Djalma Urich e Aires Saldanha. “Vim para cá pensando que o museu iria abrir, o proprietário comprou o espaço por esse motivo. Pelo menos dois restaurantes que abriram atrás do MIS, uma área escondida, o japonês Wakana e a Osteria Simon Boccanera, fecharam em menos de um ano. E nós penamos para manter o negócio. Talvez pelo entulho e água parada lá dentro, começou a ter muito mosquito, que prejudica o comércio”, arrisca Coelho. 

A professora Pilar Barbosa, 32 anos, e seu irmão, o policial Pedro Barbosa, 35, há 15 anos na Rua Djalma Urich, esquina com Avenida Atlântica, fazem coro. “Passou a ter muito mosquito. A água parada e a transformação do local em depósito também atraíram ratos”, lamentam os dois. O porteiro paraibano João Cabral, 61 anos, que trabalha desde 1979 no prédio 98 da Aires Saldanha, faz o pior juízo sobre tanto atraso. “O roubo deve ter sido grande. Há muito material parado aí dentro, escadas rolantes e equipamentos de refrigeração expostos ao sol e à chuva. E ainda mantém metade da calçada fechada”, surpreende-se. Criador, em abril de 1966, dos “Depoimentos para a posteridade”, que trouxeram notoriedade ao MIS e espalharam o modelo pelo país, o musicólogo Ricardo Cravo Albim defendia a construção de um anexo e a manutenção da atual e histórica sede do MIS, no Centro, ao lado do Petit Trianon, únicos remanescentes da Exposição do Centenário da Independência, de 1922. “Teria saído bem mais barato. O MIS é muito mais que uma referência cultural no Rio de Janeiro, sempre foi o pioneiro de todos os órgãos em relação à memória da cidade e do país”, argumenta.

Passado e presente

Muito além do que foi o antigo MIS, a nova sede pretende contar a história da cultura brasileira a partir do Rio de Janeiro. Mostrará como a criatividade das manifestações culturais cariocas forjou parte dessa cultura. 

O imóvel vai proporcionar um passeio pelo acervo da instituição e incluirá a coleção do Museu Carmen Miranda, instalada no pavimento “Alegres Trópicos”. Terá salas de exposição de curta e longa duração, espaços destinados à pesquisa, salas para atividades educativas, um centro de documentação, um cine-teatro-auditório de 280 lugares no subsolo, mirante e restaurante panorâmico no terraço. No térreo, haverá uma banca de jornal virtual com notícias atualizadas, uma loja e uma cafeteria. A exposição de longa duração começa no pavimento “Espírito Carioca”, dividido em três eixos: o humor, a rebeldia e a festa. Lá, haverá uma grande imersão no carnaval, com folia o ano inteiro. “Doce Balanço”, pavimento seguinte, é dedicado à música e ao rádio. Um documentário conta a história do samba e a evolução da música brasileira, do samba-canção à bossa nova. 

Já no pavimento “É Sal, é Sol, é Sul” surge a cidade voltada para o mar nas fotos de Augusto Malta e Guilherme Santos. No subsolo, a boate Noites Cariocas bomba da música noturna ao funk, ao lado do cine-teatro-auditório com agitada programação cultural. O tradicional acervo do MIS inclui 31 coleções que reúnem 304.845 documentos: entre os quais, 93 mil fotografias, sendo 1.700 negativos em vidro e 26 mil estereoscópicas de grande valor histórico; e algumas raridades, como uma discoteca de quase 60 mil discos, entre LPs, compactos e 78 RPM, com cerca de 18 mil discos da Rádio Nacional, entre músicas, novelas e scripts de programas icônicos. 

A maioria das coleções chegou ao MIS por doações. Entre as pérolas do acervo, estão as coleções do radialista Almirante; dos músicos Abel Ferreira e Jacob do Bandolim; dos pesquisadores Sérgio Cabral e Herminio Bello de Carvalho; além de intérpretes como as irmãs Linda e Dircinha Batista, Nara Leão, Elizeth Cardoso e Zezé Gonzaga.

O Ministério da Cultura enviou nota de esclarecimento. Confira, na íntegra:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Em relação à reportagem “Obra paralisada do novo MIS, na Avenida Atlântica, não tem prazo para recomeçar”, publicada pelo Jornal do Brasil no último 22 de julho, o Ministério da Cultura esclarece que:

•Não é correta a informação de que o Ministério da Cultura contingenciou recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) destinados às obras do Museu da Imagem e do Som. O Ministério não tem relação com o empréstimo feito pelo BID ao Estado do Rio de Janeiro para financiar o MIS. Contingenciar recursos não está entre as atribuições do MinC.

•Autorizou o MIS a captar junto a patrocinadores, por meio da Lei Rouanet, um total de R$ 71,3 milhões, por meio de três projetos. Dois estão em fase final de execução e um teve prestação de contas aprovada. Vale ressaltar que os recursos captados por meio da Lei Rouanet são destinados diretamente pelo patrocinador ao projeto. Os recursos via Lei Rouanet para o MIS foram liberados.

•Tem buscado contribuir com a construção de uma solução que garanta a retomada das obras e a realização plena do MIS. Neste sentido, promoveu, em março, uma reunião entre os diferentes agentes envolvidos, na qual foram definidas ações para agilizar o processo. Desde então, tem acompanhado a evolução do processo e coordenado outras reuniões com este propósito. A situação está evoluindo.