Carioca da gema: Rio histórico que deu nome aos habitantes da cidade está em vias de ser tombado

Já está na mesa do governador Luiz Fernando Pezão o processo para o tombamento do Rio Carioca, que começou a nascer em 27 de novembro de 2017, a partir da solicitação feita pelo “Grupo Carioca, o rio do Rio”. “Será o primeiro rio urbano do país a ser tombado, o que se justifica por sua importância histórica para a cidade, um bem de nosso patrimônio cultural”, defende o diretor geral do Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac), Marcus Monteiro. Agora, é só o governador dar uma canetada e devolver o processo ao Inepac para a publicação do tombamento no Diário Oficial.

Não há dúvida de que, muito mais importante do que tombar, é despoluir as águas que já foram consideradas afrodisíacas pelos índios. O boticário Joaquim José da Silva Souto, que corresponderia a farmacêutico e deu nome ao Largo do Boticário, engarrafava amostras daquelas águas cristalinas e curativas para vender em sua botica, na antiga Rua Direita, atual 1º de Março. Para Monteiro, porém, uma coisa leva à outra. 

“Seremos mais um órgão a cobrar a despoluição do Carioca. Numa visão de futuro, temos que apostar que é possível”, argumenta, apoiado em extensa pesquisa realizada sobre mapas e textos desde os tempos da colônia. 

Com cerca de 5,6 km que começam perto da Estrada das Paineiras, na Floresta da Tijuca, em mais de uma nascente de difícil acesso, onde a natureza pulsa com seus perfumes e apenas o canto dos pássaros quebra o silêncio, o Carioca serpenteia a céu aberto até a comunidade dos Guararapes, no Cosme Velho. Uma obra do favela-bairro, de 2000, construiu duas pequenas piscinas redondas de pedra, onde a garotada local se esbalda nas águas ainda limpas vertidas de uma cachoeira que some em tempos de estiagem. Ao longo deste percurso inicial, o rio começa a receber as primeiras doses de lixo e esgoto. O curso segue, encoberto em pequenos trechos, volta a aparecer ao lado do muro do Instituto Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho, mergulha sob o asfalto e volta a surgir no Largo do Boticário, onde já começa a exalar um odor fétido, igualmente forte a seguir, à beira do terminal rodoviário do bairro. Depois volta a mergulhar sob a pavimentação até o Aterro do Flamengo, recebendo incontáveis ligações de esgoto, até virar a língua negra mascarada por ripas de madeiras junto à foz, que desemboca na Estação de Tratamento do Rio.

Nada parecido com o cenário de proteção resgatado pelo arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti — embutida nas argumentações pró-tombamento enviadas ao Inepac pelo “Grupo Carioca, o rio do Rio”, do qual faz parte —, na carta de sesmaria passada para o nobre fidalgo Francisco de Pina, aforada em 10 de janeiro de 1612, com as exigências: “A água da dita Carioca, antes a terá limpa como se requer e não plantará coisa alguma assim de roça como de bananais e legumes e as mais coisas que se plantam. Ao longo do dito rio ficarão cobertas de mato virgem o qual não derrubará, nem se cortará de maneira que esteja sempre em pé, e querendo servir do dito rio com sua água assim para beber e lavar a roupa fará na parte e lugar para isto”. Vale lembrar que nesses tempos ainda não havia vaga ideia do que viria a ser a poluição ambiental. 

A origem do nome Carioca é discutida entre especialistas: há quem defenda que ele vem da casa de pedra mandada construir pelo então governador Gonçalo Coelho, batizada pelos índios tamoios de “akari oca” (“casa de homem branco”). Outros dizem que o nome vem da aldeia tupinambá existente no sopé do Outeiro da Glória, chamada karîoca. Além da ligação intrínseca com os primórdios da cidade, esta que foi a primeira fonte de água potável do Rio de Janeiro atravessa duas áreas de proteção ambiental e duas outras de proteção cultural, a saber, o Parque Nacional da Tijuca; a Área de Proteção Ambiental (APA) São José; a Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC) de Santa Teresa; e o Sítio Rio de Janeiro: “Paisagens cariocas entre a montanha e o mar”, inscrito em 2012 pela Unesco na Lista de Patrimônio Mundial, na categoria Paisagem Cultural.

Uma primeira etapa deste processo de tombamento deve se concretizar em agosto, quando está prevista a inauguração da restauração do complexo tombado formado pela Mãe D’água, enorme caixa d’água construída em 1744 por Gomes Freire, que bombeava o Rio Carioca para o sistema até o aqueduto da Lapa — que se tornou um viaduto em 1896, com a inauguração da linha elétrica dos bondinhos —, e daí para o Largo da Carioca. A água descia por gravidade pela Rua Almirante Alexandrino. A recuperação inclui o Reservatório do Carioca, com bacias construídas em 1865 que funcionavam como estações de tratamento, sobre as quais serão instaladas finas camadas de vidro para proteger as águas da poluição ambiental. Financiado pelo Fundo Estadual de Compensação Ambiental (Fecam), o projeto custou R$ 10,2 milhões.

Etapas do abastecimento 

Dividido em duas etapas, o projeto começa pela restauração destes bens tombados, que inclui a transformação do que no passado foi a casa do encarregado do cloro em Casa dos Visitantes, onde haverá uma exposição temporária contando a história do local, com peças relacionadas à operação do sistema, como torneiras e engrenagens. O espaço passará a funcionar na casa do funcionário, na beira da Rua Almirante Alexandrino, também tombada, assim que a família que ocupa o local for transferida pela Cedae. 

A segunda etapa é mais complexa, porque depende de fatores externos. Hoje a comunidade dos Guararapes, em frente ao complexo em obras, se abastece com as águas do Rio Carioca que rasgam a favela a céu aberto, recebendo lixo e poluição. “Quando a água tratada da Cedae, que hoje só vai até o Largo do França, em Santa Teresa, chegar aos moradores dos Guararapes, o primeiro trecho do rio ficará mais limpo e caudaloso”, prevê Marcus Monteiro. 

O sistema que funcionou na área restaurada garantiu o abastecimento de água na cidade colonial à imperial, entretanto, surgiu o drama da falta d’água, provocado pela introdução do plantio do café pelas fazendas do Maciço da Tijuca, a partir de 1760, que secou seus mananciais. Comandados pelo major Archer, seis escravos promoveram o reflorestamento da região, de 1845 a 1848. O sistema foi paliativamente ampliado até a incorporação, a partir de 1877, da rede de abastecimento, também chamada de ‘linha férrea’, formada pela captação dos rios D’Ouro, São Pedro, Santo Antônio, Tinguá, Xerém e Mantiqueira, que cortava a Baixada Fluminense rumo à metrópole. Mais tarde foi incorporada a mais robusta rede de abastecimento do Rio de Janeiro, a partir do Rio Guandu, resultado da junção dos rios Santana e Ribeirão das Lajes, mais caudaloso após a transposição das águas do Rio Paraíba do Sul. 

Hoje resta ao Rio Carioca cumprir seu papel histórico e, no que depender de projetos, um maior acesso às suas margens em futuras iniciativas de renaturalização, que resgatem trechos de seu percurso a céu aberto, como propõem projetos do arquiteto Rodrigo Azevedo e do historiador Nireu Cavancanti (veja ao lado). Esta é uma tendência mundial, cujo mais recente e bem sucedido exemplo aconteceu no ano passado em Seul, na Coreia do Sul, que acaba de promover a revitalização do Rio Cheong Gye Cheon.

PASSEIO PELAS MARGENS

O escritório Azevedo Agência de Arquitetura apresentou à prefeitura um amplo projeto de revitalização do bairro do Cosme Velho feito com a associação de moradores do bairro. Entre outras iniciativas, previa a integração, por meio da reforma das praças e colocação de uma passarela sobre o Rio Carioca, do Largo do Boticário e do Largo Professor Silva Melo, valorizando a Casa do Abacaxi e as edificações do largo e consolidando a área como local de lazer e turismo. Em 2012, o projeto chegou a ser preparado para licitação. O então prefeito, Eduardo Paes, porém, alegou que preferia investir em áreas “menos estruturadas da cidade”, como a Zona Oeste. 

Outra intervenção direta no Rio Carioca no mesmo projeto, visando a sua renaturalização, incluía a construção de um novo terminal no Cosme Velho, integrado ao contexto histórico e ambiental. O térreo abrigaria o terminal de ônibus de linha e de turismo. No primeiro e segundo pavimentos, ficariam o estacionamento para carros de passeio e vans, com 300 vagas e, na cobertura, uma praça pública com 3.600m2 (metade do campo do Maracanã). Neste trecho do novo terminal, o rio teria sua calha naturalizada, para as pessoas passearam às suas margens arborizadas, de forma que o rio voltasse a protagonizar a paisagem. ‘É uma pena, seriam iniciativas fáceis e baratas de fazer. O Cosme Velho sofre boicotes sucessivos”, lamenta o arquiteto Rodrigo Azevedo.

Já o sonho de Nireu Cavalcanti seria a possibilidade de os visitantes voltarem a beber as águas límpidas do Carioca no chafariz do Largo do Boticário. “Vários trechos do rio no Cosme Velho poderiam ser reabertos, para a população caminhar nas suas margens [estes seriam pontos em comum entre os dois projetos]. O poder público também poderia instalar um painel reproduzindo obras de Cândido Portinari, que tinha um galpão no bairro, próximo à Bica da Rainha. Outro painel poderia contar a história do Rio Carioca e, quem sabe, constatar que os índios tinham razão quando se referiam às águas afrodisíacas, por amaciar a pele feminina.